Paulo Gonet criticou decisões dos ministros do STF Flávio Dino e Gilmar Mendes. Algo considerado impensável até pouco tempo atrás. O motivo que levou Gonet a adotar esse posicionamento foram os penduricalhos. O Procurador-Geral da República criticou as decisões liminares de Dino e Gilmar, que suspenderam os penduricalhos na magistratura e no serviço público dos Três Poderes. Os pagamentos suspensos têm caráter indenizatório e elevam remunerações a patamares acima do teto constitucional, criando os chamados supersalários. Gonet alega que a corte extrapolou os limites da jurisdição constitucional e decidiu uma causa além dos limites daquela lide, ao suspender os penduricalhos. Neste ponto, está coberto de razão. No entanto, decidir fora do rito próprio é algo que os ministros do STF têm feito rotineiramente desde que ele tomou posse, mas até aqui a PGR tem feito cara de paisagem. A diferença é que agora o STF avançou sobre a remuneração dos membros do Ministério Público, dentre outros. Aí, não pode!
Inquérito do Fim do Mundo: da censura à Crusoé ao medo que atinge os algozes de Bolsonaro
O Inquérito das Fake News (Inq 4.781), aberto em 2019 por Dias Toffoli e relatado por Alexandre de Moraes, nunca teve como objetivo combater desinformação. Desde o primeiro dia, serviu como instrumento para silenciar vozes incômodas ao establishment do Supremo Tribunal Federal. O caso emblemático foi a censura imediata à reportagem da revista Crusoé “O amigo do amigo do meu pai”, que revelava ligações de Toffoli com a Odebrecht. Moraes determinou a remoção da matéria, aplicou multa diária de R$ 100 mil e ignorou o pedido de arquivamento da Procuradoria-Geral da República. Não se tratava de defesa da honra institucional, mas de censura para proteger o clã do Supremo de qualquer escrutínio. Sete anos depois, o inquérito permanece ativo, sem prazo de validade – um monstro eterno, apelidado de “Inquérito do Fim do Mundo”. Em fevereiro de 2026, a OAB Nacional protocolou ofício ao presidente Edson Fachin pedindo o encerramento imediato dessa aberração jurídica. A entidade mencionou “investigações de natureza perpétua”, “desgaste progressivo da confiança social” e “extrema preocupação institucional”. A OAB, que demorou para reagir, agora admite o óbvio: o inquérito se expandiu indefinidamente, violando devido processo legal, segurança jurídica e liberdade de expressão. A mídia repercutiu o pedido: G1, CNN, Gazeta do Povo, Agência Brasil e até The Economist destacaram o escândalo. A revista britânica foi direta ao afirmar que o STF está “envolvido em um vasto escândalo”, com sigilo excessivo e uso do inquérito para abafar apurações sobre ligações de ministros com o falido Banco Master. Contratos milionários da esposa de Moraes (R$ 129 milhões) e negócios familiares de Toffoli vieram à tona. Em resposta, Moraes abriu desdobramento no mesmo inquérito para investigar servidores da Receita Federal que supostamente vazaram dados sigilosos de parentes de ministros. Quatro auditores viraram alvo de busca e apreensão – uma operação de intimidação que revoltou o funcionalismo público e reforçou a percepção de que o Judiciário usa poder de polícia para se blindar de investigações. O inquérito não nasceu para perseguir golpistas. Nasceu para censurar. Agora, ao atingir jornalistas que noticiaram o Banco Master e auditores que tocaram em dados sensíveis, revela sua essência: intimidação seletiva. Quem questiona o STF vira réu no “Fim do Mundo”. É fundamental registrar o que a grande mídia fez durante a perseguição a Bolsonaro e aos bolsonaristas (2019-2022/2023): silêncio cúmplice ou apoio explícito. Não houve matérias críticas às irregularidades gritantes do inquérito – instauração de ofício, sem provocação da PGR, relator escolhido a dedo, prorrogações infinitas, censura prévia e violações constitucionais. Pelo contrário: Globo, Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e outros veículos publicaram reportagens e editoriais relativizando ou defendendo que “contrariar a Constituição era possível” para proteger a democracia de supostas ameaças bolsonaristas. O inquérito era visto como necessário, mesmo que atropelasse garantias fundamentais. A “defesa das instituições” justificava tudo – inclusive rasgar a Constituição. Exemplo concreto dessa fase inicial: na primeira grande operação de busca e apreensão, em 27 de maio de 2020, a Polícia Federal cumpriu 29 mandados contra aliados de Bolsonaro. Cinco nomes emblemáticos foram alvos diretos: Roberto Jefferson (ex-deputado e presidente do PTB), Luciano Hang (dono da Havan), Allan dos Santos (blogueiro do Terça Livre), Sara Winter (ativista bolsonarista) e Bernardo Kuster (youtuber). Esses cidadãos tiveram casas invadidas, equipamentos apreendidos e contas bloqueadas, tudo sob o pretexto de “fake news” e “ameaças ao STF” – sem que a grande mídia questionasse o devido processo legal ou a competência do inquérito. Mas o que mais chama atenção é o timing do pedido da OAB e da repercussão atual: o medo real é que o inquérito, criado para caçar bolsonaristas e aliados de Bolsonaro, chegue até os próprios perseguidores. Aqueles que aplaudiram prisões, bloqueios de redes sociais e cassações agora tremem ao ver que o arbítrio não tem lado ideológico fixo. O monstro que devorou opositores pode virar contra quem o alimentou. O medo se espalha: “e se chegar em mim?”. E o pior horizonte se aproxima. Em 2027, Alexandre de Moraes assume a presidência definitiva do STF (já foi vice de Fachin no biênio 2025-2027, e a sucessão por antiguidade é tradição). Com o inquérito em mãos, sigilo total e poder ampliado, ele poderia passar a relatoria para outro ministro – uma manobra que, na superfície, parece “renovação”, mas na prática perpetua o controle: o novo relator herdaria o monstro pronto, com precedentes de censura e expansão infinita. Nada muda o DNA censor; apenas troca o condutor. Diante desse limão azedo – sete anos de abusos, erosão da confiança, hipocrisia midiática e agora medo generalizado –, é hora de fazer limonada. A pressão da OAB, a repercussão midiática (mesmo tardia) e o incômodo interno no STF (há racha até entre ministros) mostram que o castelo treme. Conservadores, liberais e democratas de direita devem capitalizar: exigir arquivamento definitivo, transparência total sobre o Banco Master e freios ao ativismo que transformou o Supremo em ditadura togada. Não é defesa da democracia censurar. É ditadura judicial. O inquérito provou isso – e a grande mídia, que o apoiou quando conveniente, agora finge surpresa. Agora, com o fim batendo à porta por medo de atingir os próprios carrascos de Bolsonaro, cabe à direita organizada não deixar que ele renasça com outra cara em 2027. Porque, se não pararmos agora, o “fim do mundo” será para a liberdade de expressão – e para todos nós.
Emprego não cura crack: o autoengano das políticas para moradores de rua
Poucas ideias são tão emocionalmente sedutoras quanto a de “dar emprego para moradores de rua”. A proposta soa humana, solidária, civilizada. Apela ao nosso melhor instinto moral e, justamente por isso, costuma ser recebida com aplausos imediatos. Quem, em sã consciência, ousaria se opor a uma iniciativa que promete dignidade, renda e reinserção social para quem vive nas ruas? O problema começa quando confundimos boas intenções com bons resultados. Projetos desse tipo se multiplicam pelo Brasil exatamente na mesma proporção em que cresce a população em situação de rua. Florianópolis não é exceção. Pelo contrário: repete um roteiro já testado dezenas de vezes em outras cidades. A pergunta que raramente é feita é simples e incômoda: se essas políticas funcionassem, por que o problema só aumenta? A resposta exige abandonar o conforto das narrativas fáceis e encarar a realidade como ela é. A principal causa da permanência das pessoas nas ruas hoje não é a falta de oportunidade de emprego. É a dependência química, especialmente de crack e drogas semelhantes. Ignorar esse fato não é compaixão, é autoengano. Acreditar que um dependente químico severo conseguirá manter estabilidade profissional é uma fantasia. Pode até aceitar o emprego em um momento de maior lucidez, nos primeiros dias ou semanas. Mas quando a abstinência se impõe, a lógica da sobrevivência química fala mais alto. O resultado costuma ser previsível: abandono do trabalho, faltas recorrentes, desaparecimentos durante o expediente ou conflitos constantes com o empregador. Não por maldade, mas por incapacidade objetiva de sustentar uma rotina minimamente funcional. Esse é um dado tão conhecido que os próprios programas revelam sua fragilidade sem perceber. Quase sempre anunciam com entusiasmo quantas pessoas foram contratadas. Raramente informam quantas permaneceram empregadas após um ou dois meses. Não é descuido estatístico. É porque os números não ajudam a narrativa. Ainda assim, essas iniciativas continuam sendo defendidas com fervor. E aqui entra o fator decisivo: conveniência política. Dar emprego para moradores de rua é uma solução que não gera desgaste. Ao contrário, gera manchetes positivas, fotos emocionadas e discursos edificantes. É o tipo de política que produz capital simbólico imediato. Já enfrentar a dependência química exige decisões duras, debates impopulares e enfrentamento direto de tabus ideológicos. Exige internação, disciplina, coerção legal em certos casos e enfrentamento do discurso romantizado sobre drogas. Tudo o que um político avesso a riscos eleitorais prefere evitar. Na lógica da política de curto prazo, vale mais parecer que se está fazendo algo do que fazer o que realmente funciona. Afinal, a próxima eleição vem antes dos resultados de longo prazo. E quem sabe quem será o prefeito daqui a alguns anos? Por que assumir o ônus político de medidas difíceis se é possível apostar em soluções que comovem e rendem aplausos imediatos? O resultado é perverso. Ao oferecer respostas simbólicas, adiamos as respostas necessárias. Ao insistir em políticas que ignoram o diagnóstico correto, afastamo-nos ainda mais da possibilidade de cura. Esse raciocínio foi exposto com brutal clareza por Theodore Dalrymple, psiquiatra e ensaísta britânico que trabalhou por décadas com dependentes químicos, criminosos e moradores de rua. Em um de seus textos mais citados, ele afirma: “O sentimentalismo é a indulgência emocional que substitui o pensamento sério”. Dalrymple mostra que políticas públicas guiadas pela emoção, e não pela realidade, produzem exatamente o oposto do que prometem. Para ele, a recusa em nomear o problema é parte do próprio problema. Ao negar a centralidade da dependência química, criam-se políticas que tratam sintomas periféricos e ignoram a doença. É como oferecer uma bengala a quem precisa de cirurgia. A intenção pode ser boa, mas o resultado, salvo raríssimas exceções, é inócuo. Nada disso significa desprezo ou falta de compaixão. Pelo contrário. Levar o problema a sério é o primeiro gesto de respeito verdadeiro com quem vive nas ruas e com a sociedade que convive diariamente com as consequências desse fracasso coletivo. Enquanto insistirmos em confundir emoção com eficácia, seguiremos multiplicando programas bem-intencionados e colhendo resultados pífios. Boas intenções não bastam. Sem diagnóstico correto, não há tratamento possível. E longe do diagnóstico, os remédios errados continuarão sendo aplicados, com custo humano, social e moral cada vez maior. Talvez seja hora de trocar a pergunta confortável “quem é contra dar emprego?” por uma bem mais honesta: estamos realmente interessados em resolver o problema ou apenas em nos sentir bem enquanto ele cresce? Bruno Souza, empresário e Mestre em Sociologia Política (UFSC). Foi secretário municipal de Assistência Social de Florianópolis (SC), deputado estadual (2019-2023) e vereador na capital catarinense (2017-2019)