Há algo profundamente revelador no fato de que uma simples caminhada a pé causou mais incômodo do que escândalos financeiros bilionários, decisões institucionais controversas ou episódios recorrentes de insegurança jurídica. Não é o ato em si que assusta — é o contraste com a gravidade habitual dos acontecimentos no país.
O episódio da caminhada de Nikolas Ferreira funciona menos como causa e mais como sintoma. Ele não cria o desconforto, apenas o evidencia, revelando um país onde a reação social tem sido progressivamente contida, não por indiferença moral, mas por medo racional.
Não se trata de um povo que tenha normalizado a corrupção ou aceitado abusos como algo natural. O drama é mais complexo — e mais grave. O que se instalou é um ambiente em que exceções se repetem com tanta frequência que produzem um efeito previsível: a sensação de que reagir já não altera o curso dos fatos.
Quando o custo de se manifestar parece previsível e potencialmente desproporcional, a contenção deixa de ser covardia e passa a ser cálculo.
É assim que opera a coerção indireta. Não é necessário um decreto explícito, nem tanques nas ruas. Basta a percepção difusa de que as regras mudam conforme o personagem, de que o devido processo pode ser relativizado e de que a punição já não segue critérios claros e estáveis. Nesse ambiente, o silêncio não é concordância — é autopreservação.
Esse mesmo ambiente se reflete na forma como os fatos são tratados publicamente. Escândalos graves continuam a ser noticiados, mas o tratamento perde simetria. Casos complexos se diluem ao longo do noticiário, enquanto gestos simbólicos fora do script institucional recebem reação imediata — seja por ataque, seja por apagamento. A caminhada, curiosamente, foi tratada como se não tivesse acontecido.
Quando tudo parece sujeito a interpretações variáveis, nada parece plenamente acionável. A indignação dá lugar à impotência, não porque os fatos perderam gravidade, mas porque o espaço para reação foi sendo progressivamente estreitado.
O problema maior não é a exceção isolada, mas a sua transformação em método. Quando medidas extraordinárias passam a operar com naturalidade, algo essencial se rompe. O efeito corrosivo não é apenas jurídico; é psicológico e social. A previsibilidade desaparece, e com ela a confiança de que reagir ainda vale a pena.
Nesse contexto, qualquer gesto que fuja da inércia ganha proporções desmedidas. Não por ser radical, mas por ter se tornado raro. A caminhada causou incômodo justamente porque rompeu o script da contenção. Não convocou multidões, não prometeu vitórias, não ofereceu soluções mágicas. Apenas expôs, de forma quase desconcertante, o quanto a sociedade vinha sendo mantida em estado de paralisia.
Assim, a caminhada revelou algo que vinha sendo subestimado: existe um Brasil que ainda se recusa a aceitar o silêncio e o medo como destino. Não por acreditar em soluções fáceis, mas por reconhecer que a paralisia não pode ser normalizada.
É aí que reside o que chamo de “efeito Nikolas”. Não na figura individual em si, mas no espelho que o episódio colocou diante das instituições e da opinião pública. O escândalo não foi o ato, mas a reação desproporcional a ele — seja por desprezo, seja por denuncismo ideológico. Quando caminhar vira problema, é sinal de que algo essencial já saiu do lugar.
Não se trata de direita ou esquerda, nem de concordar ou discordar de personagens específicos. Trata‑se de algo mais elementar: previsibilidade institucional. Em um país onde ninguém sabe exatamente quais são os limites do aceitável, do legal ou do punível, não se produzem cidadãos mais responsáveis — produzem‑se cidadãos mais cautelosos, e cautela prolongada demais vira paralisia.
Quando a corrupção é tolerada por medo e uma caminhada é tratada como ameaça, o sinal é claro: não estamos diante de apatia social, mas de um sistema que aprendeu a administrar reações pela contenção. Não é o barulho que sustenta estruturas assim; é o silêncio produzido pelo receio.
A democracia não se deteriora apenas por golpes explícitos. Ela se desgasta quando o medo substitui o debate, quando a autocensura vira hábito e quando a exceção passa a operar como regra silenciosa. A democracia não cai com um estrondo; cai com concessões contínuas. O problema não é hoje — é o que isso autoriza amanhã.
Não é a caminhada que deveria nos preocupar. O que nos alarma é que, para muitos, ela pareceu excessiva. Quando até um gesto simples soa radical, o país já foi longe demais na direção errada.
Claudio Apolinario. Articulista e analista político.
