Os psicólogos afirmam que as crianças já desenvolvem, por volta dos três anos de idade, um senso básico de “certo” e “errado”, ao compreender regras sociais e reconhecer comportamentos inadequados. Assim, qualquer adulto saudável entende que torturar até a morte um cão comunitário inocente, como Orelha, é um ato profundamente errado. O episódio gera revolta, naturalmente.
Surpreendeu‑me, em um país tão diverso e polarizado como o Brasil, a rapidez e a magnitude da adesão popular a essa causa humanitária. De norte a sul, a população clama por justiça, independentemente de filiações políticas, direita ou esquerda, ou de outras divisões que costumam marcar o cotidiano.
No entanto, o mesmo vigor de indignação não se manifesta diante de outras questões éticas graves:
· É certo ou errado roubar cerca de R$ 6 bilhões de um fundo de pensão de idosos e deficientes?
· É certo ou errado que a justiça tenha concedido habeas corpus a 9 mil traficantes em 2024?
· É certo ou errado que 26 % da população brasileira viva sob regras de facções criminosas, conforme noticiado pelo GLOBO?
· É certo ou errado que a empresa pública Correios registre um rombo de R$ 10 bilhões?
· É certo ou errado que o escândalo do Banco Master, envolvendo supostas fraudes superiores a R$ 12 bilhões, já tenha sido levado ao Supremo Tribunal Federal e ao Tribunal de Contas da União?
O Papa Francisco já alertou: “A corrupção é paga pelos pobres”. Não pretendo julgar o mérito de cada caso aqui; isso cabe às autoridades competentes, dentro do Estado democrático de direito e da disputa jurídico‑política que vivemos. Contudo, essas perguntas deveriam, no mínimo, despertar interesse entre aqueles que se preocupam com o futuro do país, independentemente de ideologia.
Por alguma razão, isso não ocorre. Ainda busco entender o motivo. Acompanhei a caminhada de 255 km do deputado federal Nikolas Ferreira, que chegou a Brasília sob o lema “O Brasil Acordou”. Houve adesão, mas continuo cético quanto ao grau real de despertar da população. Platão dizia: “O preço da apatia em relação aos assuntos públicos é ser governado por homens maus”. Em uma nação séria, qualquer um dos escândalos citados provocaria revolta geral. Por que ainda não acontece no Brasil?
Não tenho resposta definitiva, mas identifico alguns fatores que podem explicar a anestesia nacional:
1 – O hábito: há muito tempo os brasileiros se acostumam com escândalos de corrupção e tendem a subestimar sua gravidade.
2 – A esperteza: muitos preferem se sentir “espertos”, acreditando que “tudo vai acabar em pizza”, ao invés de acompanhar investigações e se indignar.
3 – O interesse: decisões políticas muitas vezes refletem interesses pessoais, e os beneficiários da corrupção raramente percebem algo errado.
4 – O medo: questionamos se há censura no Brasil. Embora a Constituição de 1988 garanta liberdade de expressão e proíba censura prévia, especialistas apontam casos recentes de censura judicial e inquéritos sigilosos que restringem a liberdade, sobretudo no ambiente digital.
5 – O lado emocional: 53 % da população não leu nenhum livro nos últimos três meses, segundo a pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil” (2024). O país perdeu quase 7 milhões de leitores em quatro anos. Cerca de 29 % dos brasileiros com mais de 15 anos são analfabetos funcionais, sem pleno domínio da leitura, escrita e matemática. Dessa forma, a imagem chocante de um cachorro inocente sendo torturado tem um apelo emocional imediato que mobiliza a maioria.
Espero que as investigações sobre a morte trágica de Orelha identifiquem e punam exemplarmente os responsáveis. Também desejo que os demais escândalos em investigação recebam respostas judiciais firmes. Se a população brasileira aprender a se indignar de forma consistente, o caminho para a reparação será muito mais fácil.
Concluo com o alerta de Elie Wiesel, sobrevivente do Holocausto e laureado com o Prêmio Nobel da Paz: “O oposto do amor não é o ódio, é a indiferença. A indiferença, portanto, não é apenas um pecado, é um castigo.”
Jonas Rabinovitch. Arquiteto urbanista com 30 anos de experiência como Conselheiro Sênior para Inovação e Gestão Pública da ONU em Nova York.
