Silêncio do PL Mulher confirma postura de omissão sobre a pré‑candidatura de Flávio Bolsonaro

No Partido Liberal, o problema já não é uma divergência pontual. Há um movimento político em curso.

O PL Mulher mantém silêncio diante da indicação de Jair Bolsonaro para que Flávio Bolsonaro seja candidato à Presidência. Em política, silêncio é posição.

Em Santa Catarina, as críticas recorrentes e sem base da presidente local do PL Mulher a Carlos Bolsonaro não são aleatórias. Ataca‑se o entorno para, depois, tentar esvaziar o centro. Trata‑se de uma reorganização de poder, marcada por disputa interna e por mais um movimento que fragiliza Jair Bolsonaro.

Os fatos falam mais alto que os discursos. Enquanto integrantes do grupo estão em viagem internacional, sendo recebidos com respeito por líderes das Américas e do Oriente Médio, a pré‑candidatura está posta há dois meses. O objetivo é claro: retirar o Brasil do caminho da pobreza sob o governo Lula.

Não se trata de exigir postagens diárias ou a simples reprodução da agenda oficial. No entanto, quem está na arena política precisa atuar de forma minimamente alinhada. Integrar um movimento e permanecer em silêncio não é neutralidade. É omissão.

Convém ficar atento. Quem não escuta “cuidado” acaba ouvindo “coitado”.

Levantamento do UOL mostra que os perfis do PL Mulher não mencionaram Flávio Bolsonaro desde a revelação da pré‑candidatura. Em 5 de dezembro, Jair Bolsonaro anunciou publicamente a escolha do filho para disputar a Presidência. Quase dois meses se passaram desde então.

O comportamento contrasta com o do PL nacional. No mesmo período, o partido publicou mais de 40 postagens no Instagram citando Flávio, muitas delas apresentando a pré‑candidatura como continuidade do legado de Jair Bolsonaro.

A ausência também se repete no perfil de Michelle Bolsonaro. Não há uma única postagem sobre a campanha de Flávio. Isso ocorre mesmo após a divulgação, ontem, de pesquisa que aponta empate técnico com Lula no segundo turno, 45 % a 45 %. Um dado desse porte normalmente gera análise, registro ou, ao menos, reconhecimento público. Não houve nada.

A questão é simples e de fácil resolução. Bastaria um compartilhamento, uma mensagem objetiva de apoio. A ausência desse gesto não parece casual.

Em um momento crítico para a direita brasileira, com Jair Bolsonaro enfrentando perseguições judiciais e a inelegibilidade imposta pelo sistema, o silêncio de Michelle Bolsonaro em temas centrais do Partido Liberal tem provocado reações na base conservadora. Desde março de 2023, como presidente do PL Mulher, ela ocupa uma função que vai além do simbolismo. Coordena filiações, capacita candidatas e administra recursos expressivos, como os R$ 1,4 bilhão destinados às campanhas femininas em 2024.

Ainda assim, sua atuação tem sido associada à tutela de Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL, político marcado por histórico controverso, incluindo condenação no escândalo do Mensalão. Essa relação levanta dúvidas sobre a autonomia do PL Mulher e sobre as razões do silêncio em momentos decisivos.

Valdemar tem conduzido articulações pragmáticas, como a tentativa de aproximação com Ciro Gomes no Ceará, adversário histórico de Bolsonaro. Em dezembro de 2025, Michelle criticou publicamente essa aliança durante evento em Fortaleza, classificando decisões como precipitadas. O episódio, porém, foi pontual e destoou de seu comportamento em outros embates internos e crises partidárias.

Críticos avaliam que o silêncio preserva alianças e garante espaço político, mas cobram um custo ideológico elevado. Nas redes sociais, eleitores alinhados à direita demonstram frustração. Alguns apontam que Michelle evita movimentos sem aval direto de Bolsonaro. Outros enxergam ambições próprias e conflitos internos mal resolvidos.

Relatos também indicam que Michelle e Valdemar teriam orientado aliados a reduzir ataques ao STF, apostando em estratégias de acomodação institucional, mesmo diante da insatisfação da base.

Sob sua presidência, o PL Mulher ignorou candidaturas consideradas centrais, como a de Flávio Bolsonaro, aprofundando divisões familiares e partidárias. Ao mesmo tempo, Michelle tem apoiado nomes lançados por Valdemar, como Priscila Costa ao Senado no Ceará, reforçando a percepção de alinhamento direto com a cúpula partidária.

Para parte da militância conservadora, a dinâmica não é nova. Há quem veja uma estratégia contínua de enfraquecimento do líder para construção de protagonismo próprio. O silêncio diante de perseguições a Eduardo Bolsonaro e de alianças controversas alimenta essa leitura.

Diante do avanço da esquerda e da pressão institucional sobre o bolsonarismo, cresce a cobrança por posicionamentos claros. O uso recorrente do discurso “o que Bolsonaro indicar” já não satisfaz uma base que exige coerência e ação.

Os fatos indicam que Michelle Bolsonaro construiu poder real dentro do PL. Porém, esse poder opera sob a sombra de Valdemar Costa Neto. O silêncio em momentos decisivos tem custo político e compromete a unidade da direita. A pergunta que permanece é até quando a omissão será tratada como estratégia. A base pede firmeza, não conveniência.

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