Dizem que Simone Tebet é a nova arma da esquerda para não levar uma lavada em São Paulo. Alguns caciques do partido (não especificados na reportagem) acreditam que a presença da ministra na disputa pode garantir votos preciosos para Lula no Estado, evitando que o candidato da direita (supostamente Flávio Bolsonaro) abra uma vantagem difícil de compensar com os votos do Nordeste. Em 2022, a diferença de Bolsonaro para Lula foi de 10 pontos percentuais no Estado, contra 35 pontos percentuais em 2018 contra Haddad.
Para testar a viabilidade da ideia, precisamos verificar o que aconteceu em 2022. Simone Tebet obteve seu melhor resultado no país em São Paulo, com 6,3 % dos votos válidos no primeiro turno, contra uma média de 4,2 % no país inteiro. Mas, para onde foram os votos de Tebet no segundo turno?
Para estimar esse número, foi necessário assumir algumas premissas. A principal delas diz respeito ao destino dos votos de Ciro Gomes. Considerou‑se que metade desses votos teria ido para Bolsonaro e metade para Lula. Quanto maior a parcela que foi para Bolsonaro, menor será o percentual de votos que Tebet teria transferido ao capitão no segundo turno; o inverso ocorre se a maior parte dos eleitores de Ciro tiver ido a Lula.
Premissas menores consideram que 100 % dos votos de Felipe D’Ávila, Soraya Thronicke, Padre Kelvin e Eymael foram para Bolsonaro, e que 100 % dos votos de Leo Pericles, Sofia Manzano e Vera foram para Lula. Essas hipóteses alteram pouco o panorama, pois correspondem a 1,6 % dos votos válidos.
Também foi preciso levar em conta os votos válidos adicionais do segundo turno. Houve aumento dos votos nulos e em branco, mas também crescimento da comparecência nas urnas. No saldo, foram 80 mil votos válidos a mais, e assumiu‑se que a distribuição desses votos seguiu a proporção geral: 55 % para Bolsonaro e 45 % para Lula.
Se todas as premissas estiverem corretas, 69 % dos eleitores de Tebet teriam passado a votar em Bolsonaro no segundo turno. Mesmo sob a hipótese extrema de que 100 % dos votos de Ciro tenham ido para Bolsonaro – cenário claramente irreal – ainda seria necessário que 42 % dos votos de Tebet migrassem para Bolsonaro.
Portanto, ainda quando Tebet ainda figurava como terceira via, a maior parte de seu eleitorado parece ter se deslocado para Bolsonaro. Hoje, após ter integrado o governo Lula ao lado de Alckmin, é provável que sua votação no estado seja muito menor, já que os eleitores que migraram para Bolsonaro em 2022 dificilmente voltarão a apoiá‑la.
Simone Tebet é um dos balões de ensaio que animam os meios políticos e abastecem analistas com material para palpites. Na prática, depois de três anos no governo Lula, servindo ao lado de Alckmin apenas para conferir ao PT um verniz de “frente democrática”, ela destruiu o pouco capital político que ainda possuía. Segundo as simulações acima, estima‑se que ela teria apenas 30 % dos votos de centro que obteve em 2022. Resta saber quantos votos ainda lhe restariam entre os petistas.
Marcelo Guterman. Engenheiro de Produção pela Escola Politécnica da USP e mestre em Economia e Finanças pelo Insper.
