Provavelmente, em algum momento, você ouviu falar de Eric Hobsbawm. Ele é leitura obrigatória nos cursos de História, virou ícone da esquerda e é tratado como santo pelos comunistas. Seu livro mais famoso, ‘A Era dos Extremos’, mostra tanto seus pontos fortes quanto suas falhas como pensador.
Li um texto no UOL sobre Hobsbawm. Conhecendo o viés do portal, já esperava bajulação e mentiras. Foi exatamente isso que encontrei: o artigo o chama de ‘historiador das lutas sociais’ e ‘militante crítico’. Quem entende como a esquerda transforma seus ídolos em santos sabe que esse engodo faz parte do plano, e aqui não foi diferente.
Hobsbawm viveu as grandes tragédias do século XX. Nasceu no Egito, filho de judeus, ficou órfão e foi criado pelos tios que se mudaram para a Alemanha. Em Berlim, viu a queda da República e a ascensão de Hitler ao poder, com o surgimento do Terceiro Reich. O pós‑guerra trouxe totalitarismos que despedaçaram a democracia liberal e derrubaram monarquias europeias. Diante desse cenário, ele abraçou o comunismo e manteve essa escolha até o fim da vida.
Essa escolha explica muito de sua produção. Como historiador marxista, Hobsbawm tenta contar a história sob a lente da luta de classes, colocando a economia acima de tudo. Segundo Marx, quem controla os meios de produção determina as relações humanas; tudo o mais – tradições, nações, religião – seria apenas ‘superestrutura’. Em resumo, a condição material dos ricos e dos pobres move a história, enquanto ideias são usadas pelos poderosos para oprimir os demais.
Mas Marx errou ao colocar tudo na economia. Antes mesmo das fábricas, já existiam instituições baseadas em costumes que guiavam a vida das pessoas – como o direito consuetudinário na Inglaterra de Hobsbawm. Isso impede que a história seja vista só pela luta de classes. Além disso, a teoria da ‘mais‑valia’ foi refutada pela Escola Austríaca, provando a falha intelectual do marxismo.
Mesmo assim, Hobsbawm ignora essas críticas. O entusiasmo pela causa comunista o fez relativizar os inúmeros crimes e genocídios do regime. Em ‘A Era dos Extremos’, não há nenhuma crítica à violência da Revolução Russa. Pelo contrário, Lênin é apresentado como quem ouviu o povo. O autor deixa de fora que a revolução foi liderada por uma elite intelectual marxista, não pelas massas. Ele também omite a supressão dos tribunais e o Terror Vermelho, que tirou cerca de 1,2 milhão de vidas.
O texto do UOL diz que Hobsbawm condenou a invasão soviética da Hungria em 1956, quando cerca de 20 mil opositores foram mortos. Isso é mentira. Na época, ele justificou a ação como ‘necessária para impedir um governo de direita’. O Partido Comunista britânico nunca repudiou o massacre, e Hobsbawm permaneceu filiado até 1991, ao contrário de E. J. Thompson, que saiu do partido ao saber dos tanques em Budapeste.
O comunismo gerou as maiores matanças da história. Em todo país onde o regime se instalou, deixou um rastro de destruição e milhares de mortos. Nenhum líder comunista escapou de sujar as mãos de sangue, arruinar a economia e destruir a liberdade dos cidadãos que conseguiram fugir. Prometendo um paraíso terrestre, entregou apenas o inferno. Como dizia Gustavo Corção, quem tenta transformar a Terra em paraíso perde a felicidade do céu.
Não dá para aceitar que um homem tão instruído como Hobsbawm não tenha revelado as atrocidades do comunismo. Seu apego à ideologia política impediu que falasse a verdade, manchando sua credibilidade como historiador e como comentarista público.
Defender até o fim um movimento responsável pelo maior genocídio da humanidade mostra que a paixão ideológica pode superar o amor pela verdade. O relativismo de Hobsbawm abre caminho para mais desgraças – para ele, para quem compartilha o mesmo erro e para inocentes que pagam o preço.
