A imprensa política tem um hábito antigo: colocar Jair Bolsonaro no centro de tudo. Seja um comentário, um gesto ou até uma decisão judicial, tudo que envolve o ex‑presidente vira manchete, mesmo que o assunto não seja tão relevante. Enquanto isso, escândalos de corrupção que afetam milhões ficam na sombra, quase sem cobertura.
O escândalo do Banco Master mostra como a mídia deixa passar fatos graves. Em novembro de 2025, a Operação Compliance Zero desvendou um esquema de carteiras de crédito falsas ou infladas, vendidas por valores superfaturados. O banco captava recursos via CDBs com juros acima do mercado, transformava esse dinheiro em empréstimos sem garantia e os repassava a outras instituições por preços abusivos. Um contrato chamativo enviou R$ 303 milhões para uma empresa registrada no nome de uma atendente de lanchonete.
Segundo o Ministério Público Federal, o prejuízo total chega a R$ 12,2 bilhões, e os passivos revelados após a liquidação podem chegar a R$ 56 bilhões. O Fundo Garantidor de Créditos pode ter que pagar até R$ 49 bilhões, afetando 1,6 milhão de investidores. O Banco Central mandou a liquidação extrajudicial do banco; a PF prendeu o dono, Daniel Vorcaro, que tentava fugir do país, deteve outros executivos e bloqueou bens no valor de R$ 230 milhões. A investigação segue para apurar corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e conluio entre agentes públicos e privados.
O caso ficou ainda mais sério por causa das ligações políticas de Vorcaro. Ele visitou o Palácio do Planalto três vezes entre 2023 e 2024, durante o governo Lula, e contratou como consultores pessoas próximas ao presidente, como o ex‑ministro da Fazenda Guido Mantega, que o apresentou ao presidente, e o futuro ministro da Justiça Ricardo Lewandowski. O sócio Augusto Lima tem contato com o senador Jaques Wagner (PT‑BA) e com o ministro da Casa Civil Rui Costa, com quem criou o programa Credcesta na Bahia, que serviu de base para expandir o Master em mais de 20 estados.
Outros nomes aparecem na trama, como o ministro de Minas e Energia Alexandre Silveira e o ex‑ministro Walfrido dos Mares Guia. Para se proteger judicialmente, o Master gastou mais de R$ 500 milhões em advogados nos últimos dois anos, entre eles o escritório Barci de Moraes, que conta com Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes, e seus dois filhos. Os contratos de 2024 abrangem recuperação judicial e relações governamentais, e o escritório já defendeu a família Moraes em investigações anteriores. A PF agora verifica se esses vínculos ajudaram a maquiar contas ou a vender ativos ruins para fundos públicos, como o da Rioprevidência, que investiu R$ 970 milhões em títulos do banco.
A situação nos Correios só piora. A estatal tem déficits de bilhões e sofre fraudes internas e cibernéticas continuamente. No Espírito Santo, a PF descobriu desvio de pacotes e manipulação de apólices de seguro de itens perdidos. Em Salvador, a Operação Registro Frágil prendeu terceirizados que alteravam dados de entrega para reter mercadorias. Desde 2020, esses episódios se multiplicam sem que haja reformas reais.
As fraudes digitais aumentam o caos. Golpistas enviam mensagens pedindo taxas por supostas liberação de encomendas, oferecem empregos falsos ou simulam devoluções de pacotes. Quem cai nas armadilhas acessa sites falsos, perde dados pessoais e tem o bolso esvaziado. O crescimento do comércio eletrônico criou um terreno fértil para esses golpes.
A onda de fraudes ganhou força quando os Correios passaram a atender vítimas da grande fraude no INSS. A operação, revelada em 2025, cobrou descontos indevidos de aposentados e pensionistas, totalizando R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024, com um salto de 84% em 2023, chegando a R$ 1,3 bilhão, e projeção de R$ 2,6 bilhões para 2024, segundo a CGU. Sindicatos e associações usaram convênios com o instituto para cobrar mensalidades sem autorização, ampliando o esquema sob o atual governo, apesar de alertas desde 2022. Em um único dia, mais de 60 mil pessoas foram aos Correios buscar ressarcimento, sobrecarregando o sistema, provocando atrasos e falhas. Enquanto isso, a estatal perde participação de mercado e empresas privadas aumentam sua presença.
Novos casos de corrupção no governo Lula reforçam o padrão de desvio em órgãos públicos. Em abril de 2025, o então ministro das Comunicações, Juscelino Filho, pediu demissão depois que a PGR o acusou de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e fraude em licitações – investigações da PF que começaram em 2024, quando ele ainda era ministro. Lula manteve o ministro no cargo até a denúncia formal, gerando críticas por aparente conivência. No mesmo ano, o ministro da Previdência, Carlos Lupi, entrou em inquérito por suposta participação na fraude do INSS, que pode ter desviado até R$ 8 bilhões em consignados irregulares; Lupi já havia sido acusado em 2009 por usar avião fretado por empresário com contratos no ministério e resistiu a pedidos de demissão. A estatal Codevasf, responsável por bilhões em emendas, manteve diretores indicados pelo Centrão, continuando um histórico de irregularidades que atravessa gestões anteriores. Esses episódios ajudaram a puxar o Brasil dez posições no Índice de Percepção de Corrupção da Transparência Internacional em 2023, caindo para o 104º entre 180 países, com críticas ao fortalecimento do Centrão e à reaproximação com delatores da JBS.
O policial federal mencionado no texto tem formação em Direito e em Administração de Empresas.
