Deputados exigem a volta de Tuca, a dona da “chave do cofre” alvo da PF

A servidora da Câmara dos Deputados, Mariângela Fialek, conhecida como Tuca, foi afastada de suas funções por decisão do Supremo Tribunal Federal em dezembro de 2025, em meio a investigações da Polícia Federal que apontam irregularidades na destinação de emendas parlamentares.

Tuca coordenava a distribuição de emendas de comissão e mantinha estreita relação com Arthur Lira e Hugo Motta, ex‑presidente e atual presidente da Casa, sendo tratada como autoridade nos ministérios.

A Polícia Federal a acusa de atuar “sem preocupação” ou “interesse republicano” ao direcionar recursos parlamentares. A defesa sustenta que sua atuação era estritamente técnica.

Documentos apreendidos revelaram o que os investigadores chamaram de “conta de padaria”, referindo‑se a registros de destinações de recursos sem transparência adequada. Um investigador afirmou que, ao gerenciar repasses bilionários sem critérios técnicos claros, Tuca “fazia muita maluquice” e estava “mal acompanhada”.

A sala de Tuca, localizada no segundo andar do Anexo 2 da Câmara, era constantemente visitada por parlamentares que buscavam formalizar pedidos de recursos. Ela auxiliava prefeituras, deputados e ministérios, possuindo senhas em sistemas específicos para garantir que os recursos chegassem aos destinos acordados.

Um levantamento mostrou que Tuca esteve presente 23 vezes na sede da Presidência da República durante o atual governo, e sua ligação telefônica podia interromper reuniões em andamento.

A servidora circulava pelos ministérios de Cidades, Desenvolvimento Regional, Saúde, Turismo, Educação e Fazenda. Em 22 de março de 2023, José Guimarães (PT‑CE), líder do governo na Câmara, a acompanhou a uma reunião no Ministério da Fazenda. Em 5 de outubro do mesmo ano, às 16h52, ela visitou o gabinete do então secretário‑executivo Hildo Rocha, no Ministério das Cidades.

Parlamentares que trabalharam com Tuca a descrevem como “incisiva” quando necessário e reconhecem sua capacidade de resolver problemas. Para a PF, ela é suspeita de “direcionar” emendas sem critérios técnicos adequados.

A defesa de Mariângela contesta as acusações, alegando que “todas as informações apreendidas em seu local de trabalho são públicas e poderiam ser encontradas na Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República”. A defesa ressalta que ainda não teve acesso ao inquérito e que são falsas quaisquer insinuações que lhe atribuam um papel além do técnico.

Entre os deputados predomina a percepção de que Tuca seria apenas uma “cumpridora de ordens” e que suas palavras eram recebidas “como se fossem as palavras de Arthur Lira”. A operação que resultou em seu afastamento foi desencadeada após denúncias sobre a precariedade das destinações de recursos sob sua supervisão.

O poder nos bastidores da distribuição de emendas é descrito pelos que conviveram com Tuca como uma competência gerencial capaz de solucionar problemas de forma “incisiva”.

A investigação que culminou no afastamento começou depois que um deputado relatou irregularidades nas destinações de recursos. José Rocha (União Brasil‑BA), presidente de comissão responsável por emendas repassadas pelo Ministério da Integração, revelou que Tuca enviou planilhas prontas para assinatura em nome da Presidência da Câmara, indicando a destinação de R$ 1,125 bilhão sem especificar autores, objetos ou beneficiários.

Parlamentares e a própria servidora afirmam que ela sempre atuou como “cumpridora de ordens”. Muitos congressistas interpretam a investigação como um ataque à Câmara dos Deputados.

A Mesa Diretora da Câmara solicitou ao STF, em dezembro, a reintegração de Tuca ao cargo, em processo que corre sob sigilo. Membros da cúpula legislativa alegam tentativa de criminalizar as emendas parlamentares.

Tuca trabalhou em quatro governos presidenciais. No início da gestão Lula, quando a equipe econômica reorganizava sua relação com o Congresso após o fim do orçamento secreto, sua palavra tinha peso considerável nos círculos de poder.

Embora oficialmente fosse assessora parlamentar, Tuca atuava como interlocutora direta de Arthur Lira. Em março de 2023, participou de reunião no Ministério da Fazenda com Gabriel Galípolo, então secretário‑executivo da pasta; Laio Corrêa, chefe de gabinete do ministro; e Rogério Ceron, secretário do Tesouro Nacional. Técnicos presentes relataram que suas palavras eram recebidas “como se fossem as palavras de Arthur Lira”.

A reunião consta nas agendas oficiais das autoridades, sem detalhamento do motivo. Um participante minimizou a presença de Tuca, afirmando que o tema principal foi a discussão de uma medida provisória. Questionado se Lira havia solicitado que levasse Tuca à Fazenda, Guimarães respondeu: “Não sei te responder! Se teve a reunião, tudo teria sido feito em função da tramitação das emendas. Nem lembro disso. Lira não me pediu isso, não”.

A atuação de Tuca nos ministérios se estendia a diversos órgãos. Em outubro de 2023, esteve no Ministério das Cidades, no gabinete de Hildo Rocha (MDB‑MA), levando cobrança sobre emendas de comissão listadas por Arthur Lira que ainda não haviam sido empenhadas. Técnicos confirmaram que os recursos seriam pagos, o que ocorreu posteriormente.

Na lista de prioridades constavam emendas indicadas por Rogério Marinho (PL‑RN), Josimar Maranhãozinho (PL‑MA) e Júnior Mano (então PL‑CE), sendo os dois últimos réus e investigados por suspeita de desvio de recursos públicos. Essas negociações aconteciam quando o governo federal utilizava a retenção de recursos como instrumento de negociação política com o Congresso.

Fontes que trabalharam com a assessora destacam seu perfil metódico e sua extensa rede de contatos. Um colega ressaltou sua capacidade organizacional, mencionando as planilhas detalhadas que ela elaborava. Outro afirmou que a assessora dominava “na ponta da língua” os assuntos pendentes que precisavam de resolução.

Por meio de nota, a defesa afirmou que sua função “era e é puramente técnica e consiste na mera organização da peça orçamentária, que observa parâmetros idênticos na Câmara e no Senado, contando ainda com a anuência do Executivo”. A defesa também argumentou que todos os documentos apreendidos são de natureza pública.


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