A Polícia Federal dispõe de uma das ferramentas de perícia digital mais avançadas do mundo. Trata‑se do Cellebrite Premium, um software israelense capaz de realizar uma devassa digital em celulares apreendidos. É uma tecnologia tão poderosa que causa temor não nos criminosos comuns, mas nos próprios círculos do poder.
O Cellebrite permite quebrar senhas e padrões de bloqueio de iPhones e Androids modernos, recuperar mensagens apagadas, acessar conversas de WhatsApp, fotos, e‑mails, históricos de localização e registros que muitos acreditam ter sido definitivamente eliminados. Mesmo aparelhos desligados, isolados em gaiolas de Faraday, não escapam da extração total realizada pelos peritos.
Surge a pergunta incômoda: se o sistema é tão eficiente e tão temido, como explicar o fato de que, em investigações sensíveis, como os episódios de 8 de janeiro, nada de relevante tenha sido encontrado em celulares de personagens centrais? Especialmente em aparelhos que, segundo a narrativa oficial, deveriam conter provas robustas de articulação, comando ou planejamento.
O próprio caso envolvendo Mauro Cid tornou‑se emblemático. Documentos, mensagens, ordens diretas ou cadeias claras de comando simplesmente não apareceram, apesar do uso de tecnologia considerada padrão‑ouro na perícia criminal brasileira.
Nos bastidores de Brasília, o medo não está no aparelho apreendido, mas no que ele pode revelar fora do escopo do inquérito. Uma perícia desse nível não encontra apenas o crime investigado; ela expõe anos de relações políticas, articulações institucionais, acordos silenciosos e interesses cruzados. Por isso, o sistema teme o próprio sistema.
Quando a tecnologia é capaz de tudo revelar, mas nada aparece onde deveria, a questão deixa de ser técnica e passa a ser política. Não se trata mais do que a ferramenta pode fazer, mas do que se permite que ela revele.
Porque a verdade, por mais avançado que seja o software, continua sendo a mais perigosa das extrações.
