Diretor do Banco Central, indicado por Lula, se envolve no escândalo do Banco Master

Ailton Aquino, diretor de Fiscalização do Banco Central, enviou mensagens ao então presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, solicitando a compra de carteiras de crédito do Banco Master. As comunicações ocorreram antes da descoberta de fraudes de R$ 12 bilhões nos contratos vendidos ao banco de Brasília, fraudes que culminaram na prisão de Daniel Vorcaro, proprietário do Master, e de outros seis executivos, em novembro de 2025.

Reunião do conselho do BRB onde foram apresentadas as mensagens de Ailton Aquino

As mensagens de Aquino foram exibidas durante a reunião do conselho do BRB, realizada em 25 de março de 2025. Na mesma sessão, os conselheiros aprovaram uma oferta para a aquisição de 58 % das ações do Banco Master por R$ 2 bilhões. Nos meses subsequentes, a proposta foi reduzida para 22 % da instituição, mas o Banco Central acabou vetando a operação por completo.

A reunião, que se estendeu até 28 de março, contou com a intervenção de dois conselheiros – Ricardo José Duarte Rodrigues e Kátia do Carmo Peixoto de Queiroz – que propuseram suspender as compras de carteiras do Master. Eles argumentaram que o índice de liquidez do BRB estava abaixo do mínimo exigido pela política de risco.

Paulo Henrique Costa apresentou aos conselheiros as mensagens recebidas de Aquino, nas quais o diretor pedia a compra de mais R$ 300 milhões em créditos do Master. O presidente do BRB informou que dispunha apenas de R$ 270 milhões para esse fim e exibiu a tela do celular contendo as conversas. O conteúdo gerou espanto entre os presentes, mas prevaleceu a interpretação de que se tratava de uma solicitação do “regulador”.

Por decisão unânime, os conselheiros concederam uma exceção – registrada em ata como um waiver de 15 dias – autorizando a compra de R$ 270 milhões em créditos do Master. As mensagens não foram mencionadas na documentação oficial da reunião. Paulo Henrique Costa afirmou que não se manifestará sobre o assunto, e o BRB comunicou que não emitirá pronunciamento.

O Banco Central divulgou nota afirmando que Aquino alegou que “obviamente jamais recomendou a aquisição de carteiras fraudadas”.

O BC já havia alertado o Banco Master sobre problemas de liquidez meses antes da reunião do conselho do BRB. Segundo levantamento da Unidade de Auditoria Especializada em Bancos Públicos e Reguladores Financeiros do TCU, os avisos começaram em novembro de 2024 e se estenderam até setembro de 2025. Em novembro de 2024, um ano antes da liquidação do Master e quatro meses antes da reunião do conselho do BRB, o BC comunicou aos dirigentes do banco de Vorcaro que a situação financeira da instituição poderia acarretar a aplicação de medidas prudenciais preventivas, conforme resolução do Conselho Monetário Nacional de 2011. Essa resolução autoriza o BC a determinar ações como recomposição dos níveis de liquidez, redução do grau de risco das exposições e observância de limites operacionais mais restritivos, com o objetivo de assegurar a solidez, a estabilidade e o regular funcionamento do Sistema Financeiro Nacional.

Dados da Polícia Federal revelam que, entre julho de 2024 e outubro de 2025, o BRB transferiu R$ 16,7 bilhões ao Master. Desse total, R$ 12,2 bilhões foram identificados como alvo de falsificação. O Banco Central já informou ao BRB que a instituição precisará de uma capitalização de R$ 4 bilhões. O governo do Distrito Federal não esclareceu se, quando ou como essa capitalização será realizada.

Na nota divulgada após a publicação da matéria original, o BC destacou que a área de Supervisão, sob comando de Ailton Aquino, identificou inconsistências nas operações entre Master e BRB. O comunicado afirma que foi da área chefiada por Aquino a iniciativa de comunicar os ilícitos ao Ministério Público Federal.

Ailton Aquino colocou à disposição do Ministério Público Federal e da Polícia Federal seus registros bancários, fiscais e as conversas realizadas com Paulo Henrique Costa. A decisão ocorre enquanto prosseguem as investigações sobre a compra de carteiras de crédito fraudadas do Banco Master pelo BRB. Aquino renunciou ao sigilo de suas informações como parte de seu compromisso com a transparência, permitindo que as autoridades investiguem integralmente as comunicações entre o diretor e o ex‑presidente do banco público.

O Banco Central esclareceu que monitora permanentemente as condições de liquidez do sistema financeiro, incluindo transações entre instituições financeiras. Esse monitoramento visa “assegurar a solidez, a estabilidade e o regular funcionamento” do Sistema Financeiro Nacional. O comunicado do BC enfatiza que cada instituição financeira tem responsabilidade exclusiva pela análise da qualidade dos créditos que adquire no mercado, devendo manter procedimentos e controles internos adequados para gerenciar os riscos de seus negócios.

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