Existe um padrão que se repete quando uma sociedade entra em rota de ruptura. Antes de mexer na economia, antes de reformar instituições, antes de “atualizar” a cultura, é preciso enfraquecer a base moral, pois ela impede que abusos se tornem normalidade.
Essa base não é abstrata. Ela mora no coração das famílias, na coragem de homens e mulheres comuns e, para milhões de brasileiros, na fé cristã como referência de limite, responsabilidade e verdade. Segundo o Censo 2022 do IBGE, 73,8 % dos brasileiros se declaram cristãos – uma maioria que, apesar da crescente secularização, reconhece esses valores como fundamento da vida em sociedade.
Não é coincidência que, simultaneamente, a família seja tratada como obstáculo, a masculinidade vista com suspeita, a autoridade moral ridicularizada e a fé empurrada para o canto, como se fosse um hábito privado incapaz de orientar a vida pública.
Quando esses pilares são atacados, o objetivo não é apenas “diversidade de ideias”. O intento é desmontar a capacidade de resistência de um povo, tornando‑o mais fácil de conduzir, dividir e dominar por narrativas.
Alguns dirão: “Mas isso não é exagero? Estamos falando só de cultura!” A pergunta é legítima. Cultura não é decoração; cultura é o software que roda por trás das leis, das escolas, da mídia e da política. Quando a cultura muda, tudo muda.
A diferença entre uma sociedade livre e uma manipulável está na presença de limites que não dependem do humor do poder. A fé cristã, quando vivida com integridade, lembra que existe certo e errado, dever e limites – e que nenhum governante, partido ou ideologia pode reescrevê‑los sem consequências.
Uma família saudável forma pessoas com identidade, disciplina, senso crítico e responsabilidade, capazes de resistir à pressão do ambiente. Estudos mostram correlação direta entre desagregação familiar e aumento da criminalidade: ambientes familiares desestruturados interferem no comportamento social e na capacidade de seguir regras e limites.
Projetos revolucionários, em diferentes épocas e lugares, sempre viram a família e a fé como problema. Na União Soviética, a perseguição sistemática aos cristãos foi política de Estado, com fechamento de igrejas e prisão de líderes religiosos. No início, a própria instituição do casamento tradicional foi extinta, e o retorno se deu justamente por causa do aumento significativo da delinquência juvenil.
Na China de Mao, a Revolução Cultural (1966‑1976) atacou templos, queimou escrituras e condenou milhões ao ostracismo por defenderem tradições religiosas.
Quem tem consciência não se vende facilmente; quem tem família não se rende; quem tem disciplina não vira massa de manobra. Se alguém deseja produzir dependência, precisa desmontar a autonomia. Se quer produzir obediência ao sistema, precisa destruir referências que concorram com o Estado, o partido ou a “causa”.
Esse processo tem nome: engenharia social, progressismo radical, estratégia gramsciana de domínio cultural. O rótulo importa menos que o método: inverter valores, confundir limites, corroer símbolos, normalizar o que antes gerava vergonha e punir moralmente quem ainda acredita em princípios.
A guerra não é apenas política; é moral. Por isso, ela não se vence só com eleição, nem só com leis. Vence‑se quando a maioria da sociedade se recusa a atravessar a linha.
E qual é essa linha? É a linha em que a liberdade vira licença para perseguir, a verdade vira “narrativa”, a família vira “opressão”, crianças se tornam objeto de disputa ideológica e o homem é treinado para pedir desculpas por existir – até que, por medo de ser atacado, abandone o papel de proteção e liderança responsável dentro de casa.
Essa linha é inegociável porque, quando ela cai, tudo desmorona em cascata: a violência cresce, a confiança social desaba, o vício vira refúgio, o cinismo vira identidade, e a nação passa a sobreviver sem horizonte.
Por isso, o chamado é claro: cristãos e conservadores não podem reagir como se fosse apenas mais um debate nas redes sociais ou uma disputa eleitoral. É um processo de longo prazo, feito com repetição e captura de linguagem. Se não ocuparmos os espaços públicos com coragem e responsabilidade, alguém ocupará com mentira e ressentimento. Se não formarmos nossos filhos, alguém o fará por nós. Se não falarmos, alguém falará em nosso nome.
Não precisamos de gritaria. Precisamos de mobilização e presença: influenciar conversas em casa, no trabalho, na escola, na igreja e na política local; recusar o silêncio conveniente; parar de terceirizar a defesa do que é certo para “os de cima”.
A civilização não é sustentada por celebridades nem por autoridades distantes. Ela é sustentada por pessoas comuns que decidem, todos os dias, não cruzar a linha.
A última barreira não é um slogan. É uma decisão. Em algum momento, cada um de nós precisará escolher: assistir à corrosão dos fundamentos como quem assiste a um espetáculo, ou assumir, com caráter, coragem e responsabilidade, o lugar que a história cobra dos que não aceitam viver de joelhos. Essa é a linha inegociável.
Claudio Apolinario. Articulista e analista político.
