Não são os governos que ameaçam a universidade. Eles passam; nunca são eternos. Tampouco as restrições orçamentárias conjunturais, que podem ser minimizadas ou contornadas por gestões competentes e criativas, impulsionadas sobretudo por inovações gerenciais e tecnológicas.
Nem portarias ministeriais, medidas provisórias ou pressões políticas de ocasião podem debilitar a universidade, pois são mais fugazes e voláteis que a amplitude e a supremacia do seu desígnio institucional. Muito menos denúncias infundadas e vazias, perecíveis em seus propósitos e motivações.
Não. Esses não são, em absoluto, os fatores que ameaçam a sobrevivência da academia e a sua consolidação como sede do conhecimento.
O que realmente ameaça a universidade são as suas “anomias” intrínsecas: o distanciamento da cultura interna das finalidades civilizatórias para as quais ela existe, o descolamento da rotina das funções sociais mais nobres que lhe dão sentido e a perda do ethos acadêmico, definidor de sua própria natureza e historicidade.
Vale lembrar que Pierre Bourdieu, sociólogo francês e um dos mais importantes intelectuais do século passado, constatou que todo campo da vida social representa um “espaço simbólico”, um microcosmo dotado de leis próprias, onde se legitimam valores e representações afinados com as finalidades coletivas desempenhadas. O poder simbólico de cada campo estabelece, internamente (e perante a sociedade), a hierarquia dos signos, definindo o que deve ser valorizado e adequado às práticas sociais a ele afetas, inclusive as relações de poder, em consonância com suas funções societárias específicas.
Assim, numa universidade – campo educacional e de pesquisa por excelência – os valores e práticas mais significativos, que formam um “habitus” indispensável à sua evolução institucional, se traduzem em princípios como o experimento incessante do conhecimento, o enaltecimento permanente do estudo, a exaltação do mérito, a valorização da pesquisa de qualidade, a formação teórica e técnica competente de profissionais, o convívio harmônico entre as áreas do saber, o pluralismo de ideias, o respeito às diferenças filosóficas, éticas e estéticas, a razão comunicativa e a tolerância entre correntes contrárias de pensamento.
A perda progressiva desse “habitus” está condenando silenciosamente a universidade brasileira a um perigoso retrocesso, com sinais de obsolescência em alguns setores e perda de competitividade acadêmica face aos avanços científicos no resto do mundo.
É a mentalidade sindical e o espírito corporativo que empobrecem a universidade, tornando‑a autista, entrópica, autofágica, incapaz de pensar, formular e enfrentar, com abertura, os verdadeiros desafios do desenvolvimento econômico e social do país, afastando‑se dos interesses da sociedade.
A partidarização da instituição, com seu aparelhamento político, diminui sua legitimidade perante a coletividade que a sustenta, provocando perda progressiva do respeito social, do reconhecimento funcional e do mérito acadêmico.
É o uso da cátedra como palanque político. É o ensino “faz‑de‑conta”. É a pantomima em sala de aula, por muitos tratada como “bico”. É a preguiça na busca pelo conhecimento.
É o engodo como conteúdo. É o pacto da mediocridade – pelo qual ninguém ensina e ninguém aprende. É o descaso e a omissão como regra de conduta que afogam a instituição.
Em suma, trata‑se da substituição da ciência isenta – o que não significa “neutralidade” – por ideologias farsantes (de direita ou de esquerda) que contaminam a mentalidade da academia, condenando, pelo analfabetismo técnico e científico, as futuras gerações à inoperância profissional e à insignificância social.
Uma minoria de professores dedicados e de pesquisadores competentes ainda mantém, por “aparelhos” (para usar uma metáfora provocativa), a respiração da universidade em funcionamento, enquanto a maioria do corpo docente permanece acomodada em seu esforço de atualização intelectual, muitas vezes iludida e desnorteada em batalhas ideológicas, com direitos garantidos a priori, independentemente de avaliações rigorosas e qualitativas que se dissiparam ao longo da carreira.
Não, a universidade não é território para acomodados, nem para charlatães ou capadócios. Tampouco deve servir de arena política ou de palco para qualquer tendência doutrinária de ocasião. Essa opção seria um erro monumental, talvez o mais mortífero, com consequências deletérias à sobrevivência institucional.
A função da academia é outra, diametralmente oposta à manipulação política, e só pode ser cumprida satisfatoriamente com o resgate dos valores e símbolos que garantem o cumprimento de sua funcionalidade social específica.
Por isso, as eleições universitárias, como a de reitor, não podem ser balizadas por princípios artificiais e populistas – como a pretensa “igualdade” ou “isonomia” entre docentes, estudantes e técnico‑administrativos – num falso e demagógico “democratismo” que desconsidera a natureza e o papel específicos da instituição, equiparando‑a a esferas como a de um prefeito ou governador, eleitos por propaganda e cartazes, e não exclusivamente por argumentos e teses adequadas aos desafios da função.
Não cabe, nem deve caber, na academia a demagogia, o oportunismo ou a charlatanice. A cátedra – que não pode ser palanque – deve ser revestida de um tecido discursivo e ético, jamais diminuída pelo ativismo cínico dos arrivistas ou pela mediocridade dos picaretas de plantão.
A universidade não é (nem deve ser) partido, sindicato ou local de culto; assim como suas artérias não podem ser irrigadas por credos fundamentalistas ou sofismas mal‑intencionados, sob pena de proliferação metastática dessas irracionais tumorações.
A universidade deve ser, simplesmente, universidade – conforme os traçados da tradição civilizada e em conformidade com suas finalidades específicas definidas em lei. Simples assim.
Na prática, a universidade deve ser responsável e autônoma em suas funções acadêmicas e administrativas, cumpridas com zelo e competência, mas não soberana perante a sociedade que a mantém, representada por governos democraticamente eleitos, portadores de legitimidade para definir, dentro da lei, o que é prioritário e desejável para o interesse geral, conforme as prerrogativas constitucionais. Assim ocorre em todo o mundo civilizado onde impera o modelo democrático de poder.
É certo que a universidade não se confunde com a sociedade. Ela constitui apenas um “campo” entre outros, com funções próprias e peculiares. Seu dever é servir à sociedade com maestria e eficiência, no que lhe compete.
Não se trata de formar médicos, engenheiros ou professores “socialistas”, “progressistas” ou “conservadores”. O objetivo é formar profissionais competentes que salvem vidas, construam equipamentos de qualidade e eduquem com proficuidade, proporcionando aos estudantes a aquisição de habilidades indispensáveis ao exercício da cidadania no mundo globalizado. Ou assim será, ou a universidade será inútil tanto para o capitalismo quanto para o socialismo – ou qualquer outra ficção societária.
A universidade é, antes de tudo, uma instituição de ensino e pesquisa; como tal, deve manter sua cultura interna alinhada ao conhecimento, não à conquista do poder político. Esse tipo de “poder” – o do saber – deve ser democraticamente socializado entre alunos, professores e técnico‑administrativos, não por cargos ou vantagens passageiras. Essa é a única “democracia” válida para o ambiente acadêmico. O resto é armadilha ou emboscada.
Alex Fiúza de Mello. Professor Titular (aposentado) de Ciência Política da Universidade Federal do Pará (UFPA). Mestre em Ciência Política (UFMG) e Doutor em Ciências Sociais (UNICAMP), com Pós‑doutorado em Paris (EHESS) e em Madrid (Cátedra UNESCO/Universidade Politécnica). Reitor da UFPA (2001‑2009), membro do Conselho Nacional de Educação (2004‑2008) e Secretário de Ciência e Tecnologia do Estado do Pará (2011‑2018).
