Cecílio Galvão, advogado que fez a ponte entre associações sob investigação e o INSS, recebeu R$ 4 milhões dessas entidades suspeitas por um esquema de descontos irregulares nas aposentadorias. O dinheiro apareceu em documentos do Coaf que foram levados à CPMI do INSS no Congresso. Apesar disso, a PF não incluiu Galvão em nenhuma fase da Operação Sem Desconto, que mira descontos ilegais nos benefícios.
A Abenprev mandou R$ 3,1 milhões para Galvão e a Unibap deu R$ 888 mil. Ambas estão no foco da polícia por um esquema de descontos sem autorização. A Unibap já faturou R$ 183 milhões tirando dinheiro dos aposentados; a Abenprev arrecadou R$ 80 milhões.
As associações deram procuração a Galvão para fechar acordos com o INSS. Com esses acordos, elas podiam descontar as mensalidades direto dos contracheques dos membros.
Galvão também dirige a consultoria Crédito e Mercado, que atende institutos de previdência em todo o país. A empresa trabalhou para municípios que enviaram recursos de fundos previdenciários ao Banco Master, que está sob investigação da PF por suspeita de fraude de bilhões.
A Crédito e Mercado promoveu uma palestra com Eric Fidelis, filho do ex‑diretor de Benefícios do INSS, André Fidelis, que também está sendo investigado nesse esquema.
Galvão vem de uma família política de Pernambuco e foi prefeito de Belo Jardim na década de 1990. Em 2014, tentou a vaga na Assembleia Legislativa e ficou como suplente. Hoje é filiado ao Solidariedade, frequenta Brasília e esteve numa reunião com o vice‑presidente Geraldo Alckmin em 2023.
Embora as associações tenham, de fachada, aposentadas como presidentes, quem realmente manda e tira o lucro são dois empresários do ramo de crédito consignado e seguros: Zacarias Canuto e Gutemberg Tito. Juntos, eles faturaram mais de R$ 11 milhões com essas entidades, de acordo com o Coaf. Mesmo com a polícia na pista, Tito sacou várias vezes R$ 50 mil em dinheiro.
A CGU encontrou várias falhas nas associações: membros cadastrados com documentos expirados e milhares de nomes de pessoas já falecidas nas listas enviadas ao INSS. Por causa disso, as entidades já estão sendo processadas.
Além disso, Galvão tem uma empresa que vende empréstimos consignados para grandes bancos.
Ao ser questionado, Galvão disse que foi contratado apenas para dar assessoria jurídica às associações citadas. Ele explicou que o principal objetivo do contrato era a assinatura do ACT – Acordo de Cooperação Técnica.
Galvão contou que os contratos foram feitos direto com a Unibap e a Abenprev, assinados pelos representantes legais da época. Ele ainda disse que, na sua empresa, foi palestrante em um evento da Crédito e Mercado sobre compensação previdenciária.
Sobre a relação com a Diretoria de Benefícios do INSS, Galvão afirmou que sempre atuou pelos canais oficiais, cumprindo o que o contrato exigia, sem se importar quem estivesse no comando, e trabalhou intensamente até a publicação dos ACTs.
Galvão esclareceu que sua empresa não indica investimentos aos clientes. O que ela faz, por exigência regulatória, é dar um parecer técnico sobre se um produto ou banco segue a lei e a política de investimentos dos clientes. A decisão final de investir fica a cargo dos órgãos deliberativos de cada RPPS.
Sobre o encontro com Alckmin, Galvão disse que foi ao ministério como cidadão, não representando nenhuma empresa. Junto a especialistas em economia verde, ele só queria contribuir para o debate sobre estoque e crédito de carbono, tema que na época chamaram de “petróleo verde”.
