Já sei o que vocês estão pensando. Não é nada disso. O trabalho no Congresso é tremendamente extenuante. Conceder um dia de licença a cada três dias de trabalho é uma medida justa e correta para preservar a saúde mental daqueles que mantêm nossas instituições democráticas em funcionamento. A democracia brasileira não merece menos.
É verdade que alguns servidores transformarão essa folga em dinheiro. O salário total poderá chegar a R$ 77 mil, bem acima do teto oficial do funcionalismo. Contudo, quem faz essa conta demonstra um espírito mesquinho. Avaliar o valor dos nossos servidores apenas por cifras monetárias revela a pobreza de espírito de quem realiza esse tipo de julgamento.
Além disso, não se trata de um “fura‑teto”, mas de “verbas indenizatórias”. Quem desconhece a diferença não deveria se envolver na discussão. Essas medidas visam conter a debandada de servidores para a iniciativa privada. Muitos abandonam a estabilidade e os benefícios do serviço público em busca de empregos que pagam muito mais. Não conheço casos específicos, mas certamente existem, pois aumentar o salário é uma forma de reter essa mão de obra cada vez mais escassa. Basta observar o insucesso dos últimos concursos públicos.
Unânimes na aprovação, todos os partidos, do PT ao PL, apoiaram a medida. Apenas PSOL e NOVO votaram contra, demonstrando falta de capacidade de entendimento democrático.
Recentemente, o STF vetou uma série de benefícios para os funcionários dos Correios, concedidos anteriormente pelo TST, sob a justificativa de que a empresa está quebrada. Espero que esse mesmo STF não suspenda os benefícios aos servidores do Congresso, mesmo com o Brasil em situação delicada. Afinal, sempre há um pouco mais de sangue a ser extraído das veias do trabalhador brasileiro. Tudo vale a pena para manter nossas instituições democráticas em boa forma.
Marcelo Guterman. Engenheiro de Produção pela Escola Politécnica da USP e mestre em Economia e Finanças pelo Insper.
