Bolsonaro e o extermínio de sua imagem: entre a máscara de ferro e a tentativa de apagá-lo da história

O tratamento dado hoje a Jair Bolsonaro não se assemelha à aplicação da justiça. Trata-se de um esforço deliberado para silenciá-lo, isolá-lo e, principalmente, apagar sua presença da vida pública brasileira.

Bolsonaro cumpre pena por um crime impossível, um crime que não cometeu e que nunca existiu. É um preso político. E como todo preso político da história, não basta prendê-lo — é preciso escondê-lo.

Ninguém pode vê-lo sem autorização de seu algoz, o ministro Alexandre de Moraes. O mundo não pode vê-lo. A família precisa pedir permissão para visitá-lo e, ainda assim, sem registrar imagens. Nesta semana, ao ser levado a um hospital depois de passar mal no cárcere, colocaram lençóis à frente para impedir que o público e a imprensa o vissem.

Essa cena não pertence a uma democracia saudável. Ela evoca uma história clássica da literatura e do imaginário político: a do “Homem da Máscara de Ferro”, personagem eternizado por Alexandre Dumas no romance “O Visconde de Bragelonne: Dez Anos Depois”.

Naquela narrativa, o prisioneiro não era apenas encarcerado. Ele era escondido do mundo. Seu rosto precisava permanecer oculto para que ninguém soubesse quem ele era e para que sua existência não produzisse efeitos políticos.

É exatamente essa lógica que se repete: não basta prender, é preciso impedir que seja visto.

Mas há ainda um paralelo histórico mais profundo. Na Roma antiga existia uma punição chamada “Damnatio Memoriae”, a “condenação da memória”. O Estado apagava o nome do condenado das inscrições, destruía estátuas e tentava eliminar qualquer vestígio de sua existência.

Não bastava derrotar o adversário. Era preciso fazer com que ele desaparecesse da história.

O que se observa hoje é uma versão moderna dessa prática. Tentam controlar sua imagem, limitar sua voz e restringir sua presença pública, como se fosse possível apagar da memória nacional um presidente que governou o país e mobilizou — e mobiliza — milhões de brasileiros.

A história, porém, costuma ser implacável com quem tenta manipular a memória coletiva. Personagens que o poder tentou esconder, como o prisioneiro da máscara de ferro ou as vítimas da “Damnatio Memoriae”, acabaram se tornando símbolos ainda mais fortes com o passar do tempo.

Porque há uma verdade que atravessa os séculos: quanto mais o poder tenta esconder um homem, mais ele se transforma em história.

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