Diante de testemunhas, uma senhora avançou o potente automóvel contra a mureta que havia na frente de um centrinho comercial. Quanto mais fragmentos de carro e concreto eram vistos em meio à fumaceira dos pneus que queimavam, mais ela pisava no acelerador pensando ser ele o freio. E permaneceu assim até o carro salvar a própria vida e desligar tudo.
A analogia entre a cena e o maltratado Brasil se impõe naturalmente. A maioria do Senado, hábil em negócios, destrói o próprio poder e cria condições para o protagonismo político do Supremo Tribunal Federal. Os ministros do STF pisam no acelerador da política instrumentalizando o poderoso motor da justiça. O lamentável jornalismo da velha imprensa seleciona o que publicar e faz convenientes “recortagens” quando tão necessários se faziam os furos de reportagem.
Um desastre em modo dane-se. No balaio dos desacertos, os egos se inflam, as prisões políticas se multiplicam e a censura se instala. O cala-boca vira multiformes projetos de lei, ganha apelido em inglês e se torna inquérito policial, com cabeça neste mundo e pés no outro. A prepotência é verbalizada e a arrogância da débil natureza humana é cultuada como sarça ardente, manifestação divina do próprio poder, teofania de uns, venerada com medalhas e aplausos de outros.
Ao longo destes últimos anos, ficou demonstrado que criticar um deputado não é o mesmo que criticar o parlamento; criticar um senador não é o mesmo que criticar o senado e, por pura lógica, criticar um ministro do Supremo não é o mesmo que criticar o Supremo. Certo? Certíssimo. E ainda que fosse a mesma coisa, qual o problema? Se todos se omitirem na crítica às instituições, como serão elas corrigidas? Como retornará o rio da Justiça ao leito do bom Direito?
Convenhamos, essas instituições do Estado, perfeitas não são. Se fossem, não teriam chegado a estas semanas de tão desolador descrédito. O otimismo dos constituintes de 1988 esgotou o prazo de validade. É hora de realismo.
Não surpreende que uma Constituição com tantos defeitos tenha produzido essa mescla de corrupção com impunidade. Não surpreende que tenha gerado tantos partidos que são, em quase totalidade, interesses fragmentados e transformado a Carta de Ulysses em caixa de ferramentas da maioria do STF.
As eleições de outubro são a hora de corrigir o erro e confiar o poder a mãos hábeis, sem cometer o erro de quem entregou o carro àquela senhora que acelerou quando tinha que frear.
