O Carnaval brasileiro sempre foi mais que festa: era identidade, era povo nas ruas, era família reunida para assistir ao “corso”, o desfile das escolas de samba que encantava gerações.
Havia magia e pertencimento.
Com o tempo, naturalmente, houve evolução.
As escolas cresceram, os desfiles tornaram‑se espetáculos grandiosos e a disputa entre elas ganhou contornos épicos. O mundo inteiro passou a enxergar o Brasil como referência de cultura popular.
Até aí, tudo bem.
Mas nem toda evolução traz benefícios.
Hoje, o Carnaval parece ter perdido parte da sua essência. A festa que nasceu do povo foi, gradualmente, sequestrada por interesses políticos e econômicos. O brilho das fantasias e a força dos enredos muitas vezes ocultam bastidores obscuros: patrocínios questionáveis, acordos de conveniência e até uso de dinheiro público para transformar o desfile em palanque.
É triste constatar que, em vez de ser espaço de celebração da diversidade e da criatividade, o Carnaval também se tornou ferramenta de propaganda.
Quando o próprio presidente da República financia uma escola de samba para receber apoio explícito, trata‑se de um desvio grave: a festa popular vira marketing eleitoral antecipado.
O silêncio que cerca esse fenômeno é ensurdecedor.
O Carnaval merece respeito. Não pode ser reduzido a moeda de troca. O povo que construiu essa festa — do batuque nas comunidades ao luxo da avenida — tem o direito de que ela continue sendo expressão autêntica da cultura brasileira, e não vitrine de interesses particulares.
O que se transformou o Carnaval no Brasil? Em espetáculo, sim. Mas também em campo de disputa, onde a alegria do povo corre risco de ser engolida pela política rasteira. E isso, convenhamos, não tem nada de festivo.
