A impressão que fica diante de tudo que está acontecendo no Brasil é de que os tais “salvadores da democracia” mergulharam numa profundidade perversa, onde a lei simplesmente não existe para eles. Fazem o que querem, como querem, da maneira que lhes convém.
Um texto publicado pelo escritor e mestre em ciência política João Eigen é cirúrgico e expõe com clareza essa algazarra. Confira:
“A maior ironia da história recente do Brasil está se desenrolando, mas só será plenamente compreendida pela próxima geração de brasileiros.
O estabelecimento de um estado paranoico e de perigo constante na população – o expediente clássico dos ditadores que se utilizam de inimigos externos para tal – foi, no Brasil, criação de uma elite patrimonialista e corrupta para manter seus privilégios e a fachada de normalidade legal e democrática. Na falta de um inimigo externo, foi preciso criá‑lo: o ‘golpe fascista’.
As futuras gerações lerão nos livros de história como metade da população do país defendeu, bateu palmas ou fez vista grossa para a destruição da legitimidade das Instituições – e tudo porque um ‘golpe fascista’ tinha que ser derrotado e a democracia continuou sob uma ‘permanente ameaça’ existencial, que a corroeu por dentro mesmo com os supostos ‘fascistas’ presos. Perceberão a imagem do desastre em câmera lenta quando os ‘salvadores’ da democracia passaram a utilizá‑la para perverter a lei, silenciar jornalistas e perseguir cidadãos transformados em inimigos públicos com ‘intenções e ideias antidemocráticas’.
A história geralmente não perdoa quem, em tempos de flagrante injustiça, foi incapaz de se levantar, acusá‑la e combatê‑la – e é assim que, espero, as futuras gerações julguem nosso Brasil contemporâneo e todos os cínicos, cúmplices e cegos que auxiliaram na sua ignóbil e lenta implosão.”
