A controvérsia ganhou forma no desfile de uma escola de samba que representou os conservadores como “latas de conserva”, adotando um tom irônico. A imagem, concebida como crítica, permite outra interpretação. Afinal, conservar significa impedir que o que é essencial se deteriore; é impedir o estrago, prolongar a vida daquilo que realmente vale a pena e garantir que o que funciona continue funcionando.
Em meio à polarização, a palavra “conservador” acabou se tornando um rótulo. Contudo, antes de atacar ou defender, é necessário compreender o real sentido desse termo.
Conservar não equivale a permanecer estático no tempo; trata‑se de agir com prudência. A tradição conservadora, associada ao pensamento de Edmund Burke, ensina que a sociedade funciona como um pacto entre gerações – as que já viveram, as que vivem hoje e as que ainda virão. Mudanças podem ocorrer, mas precisam respeitar a experiência acumulada e aquilo que mantém a ordem social.
No campo político e social, o conservadorismo valoriza a estabilidade. Defende pilares como a família, a fé, a propriedade privada e instituições sólidas, pois reconhece que esses alicerces sustentaram a sociedade por séculos. Quando necessárias, as mudanças devem ser realizadas com cautela, passo a passo, sem destruir o que ainda está de pé.
E ao incluir evangélicos nessa caricatura, é preciso lembrar que a fé não é objeto de deboche, mas fundamento moral para milhões de brasileiros.
A direita conservadora enfatiza responsabilidade individual, liberdade acompanhada de dever e limites claros para o poder do Estado. Para essa visão, a ordem não é opressão; é condição indispensável para que a liberdade exista.
Essa lógica se estende a outras áreas da vida. Na economia, uma postura conservadora implica gastar com responsabilidade, evitar riscos desnecessários e proteger o que já foi conquistado. Na cultura, significa cuidar da memória, preservar tradições e valores que formam a identidade de um povo. Na saúde, consiste em priorizar tratamentos menos invasivos, preservando antes de substituir. Em todos os casos, a ideia é simples: proteger o que já provou ser eficaz.
O conservador não é contra o progresso; ele se opõe à ideia de que seja preciso destruir tudo para avançar. Não acredita que a sociedade amadureça incentivando o vitimismo ou transferindo toda a responsabilidade ao Estado. Quando o indivíduo deixa de assumir seus deveres, a dependência cresce e a autonomia enfraquece.
Instituições como a família, a propriedade privada, a liberdade religiosa e o Estado de Direito atravessaram séculos porque foram preservadas. A civilização não se sustenta em rupturas constantes, mas em responsabilidade contínua.
Se “latas de conserva” simbolizam a proteção do que é essencial, talvez a ironia tenha revelado, ao final, um mérito: o de quem luta para manter vivo o que é justo, sagrado e seguro.
