Um episódio envolvendo uma delegada da Polícia Federal e um motorista de aplicativo terminou com a condução do profissional à delegacia na última quinta‑feira (8/1), em Brasília. O caso teve início após a autoridade esquecer um notebook no veículo utilizado em uma corrida entre o Setor Hoteleiro e o Aeroporto Internacional de Brasília.
Conforme o boletim de ocorrência, o motorista, que trabalha há cerca de quatro anos com transporte por aplicativo, completou a viagem até o aeroporto. Depois de deixar a passageira, aceitou outra corrida, retornando ao ponto de origem. Durante esse trajeto, percebeu uma pasta no banco traseiro e concluiu que o objeto havia sido esquecido pela passageira anterior.
Logo depois, o condutor começou a receber diversas ligações. Ao atender, confirmou que estava com o notebook e explicou que precisava concluir a corrida em andamento antes de retornar ao aeroporto para devolvê‑lo. Informou ainda que cobraria R$ 50 referentes ao deslocamento necessário para entregar o equipamento.
De acordo com o relato do motorista, a delegada recusou‑se a pagar o valor, alegando que se tratava de extorsão. Diante da recusa, ele enviou mensagem esclarecendo que o Código Civil permite o recebimento de até 5 % do valor de objetos achados, mas que, no caso, solicitava apenas o ressarcimento do trajeto adicional.
O motorista também destacou que, segundo a orientação da plataforma para a qual presta serviço, o procedimento indicado é entregar itens esquecidos na delegacia mais próxima, e não diretamente ao proprietário. Mesmo assim, afirmou que seguiu até o local combinado para efetuar a devolução.
Ao chegar ao aeroporto, porém, o motorista relata ter sido surpreendido por agentes da Polícia Federal. Foi conduzido inicialmente à delegacia da área aeroportuária, onde seus dados foram coletados, e depois encaminhado à Superintendência da Polícia Federal em Brasília.
Na unidade policial, declarou que nunca havia sido detido antes e reafirmou que apenas solicitou o pagamento da taxa de deslocamento. Também apresentou o áudio que teria enviado à delegada durante a discussão:
“Aí, tá a lei pra senhora. Caso a senhora não conheça ou desconheça essa lei, a lei tá aí, tá? Eu tô fazendo só meu papel de devolver; tem muito cara aí pilantra, que se esquecesse no carro deles, eles te roubavam, mas eu sou honesto, gosto de devolver as coisas pra todo mundo que entra no meu carro, parceira, entendeu? Aí você quer taxar os outros de menino, ninguém é menino, não. A senhora pode ser Polícia Federal, a senhora pode ser Presidente…”
Após prestar depoimento, o motorista foi liberado. Contudo, acabou sendo bloqueado na plataforma de transporte após a denúncia de extorsão registrada contra ele.
Procurada, a Polícia Federal informou, por meio de nota, que o motorista teria desacatado os policiais federais presentes no local no momento da devolução do notebook.
“Ele foi encaminhado à Superintendência Regional da Polícia Federal para esclarecimentos, sem prisão ou uso de algemas”, informou a corporação.
A PF também comunicou que será instaurado procedimento para apurar a eventual prática de crimes relacionados ao caso.
