O depoimento de uma ex‑recepcionista do gabinete do ministro Marco Buzzi foi extremamente contundente. Ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que teriam sido ouvidos pela revista Veja, declararam que os atos “revoltantes” do magistrado tornaram sua permanência no tribunal “insustentável”.
“O STJ virou cena de crime. E de um crime abominável”, relatou um dos ministros.
A indignação dos demais ministros do STJ baseia‑se na mais dura afirmação de uma servidora que se declarou vítima de Buzzi.
“Me senti suja”, disse ela num longo e emocionante relato gravado em vídeo no Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Trabalhadora terceirizada no STJ, a ex‑recepcionista era o elo mais vulnerável de um gabinete formado por servidores de carreira e por indicados a cargos de confiança pelo ministro. Em seu depoimento, entre lágrimas, ela descreveu uma rotina de abusos e terror enquanto atuava no gabinete do magistrado.
O Radar da Veja publicou o seguinte: os episódios relatados pela mulher ocorreram ao longo do ano passado. “Tudo começou com elogios. Você está linda hoje”, contou ela sobre as abordagens de Buzzi no gabinete.
Designada para a função de secretária, a mulher era responsável por cuidar dos detalhes de funcionamento do gabinete, atender o ministro e outros assessores, receber visitantes e executar pequenas tarefas que Buzzi lhe ordenava.
Primeira a chegar ao gabinete, a ex‑recepcionista afirmou que ficava sozinha com Buzzi em diversos ambientes. Nos amplos gabinetes dos ministros do STJ, os espaços são bem demarcados: além da sala privativa com escrivaninha e sofás, há um cubículo para depósito de objetos e um corredor interno que liga a área reservada do ministro a salas de assessoria e a uma biblioteca.
No relato, a ex‑assessora de Buzzi contou ter sido assediada em quatro desses ambientes. Em um dia, o ministro a chamou à sua sala alegando um barulho que, segundo ele, vinha do cubículo ligado ao seu espaço privativo. Ao entrar, percebeu que Buzzi a seguia logo atrás e sentiu a mão do ministro deslizando por suas nádegas. Em choque, constatou que não havia nenhum problema e deixou o local rapidamente.
Em todos os episódios, segundo a mulher, o padrão foi o mesmo. Em outra ocasião, enquanto estava na biblioteca do gabinete, Buzzi chegou, calou‑se e passou a mão em suas nádegas novamente.
Os dias tornaram‑se uma tormenta para a mulher. Ela relatou ser a única provedora da família, o que a obrigou a permanecer no emprego apesar do constrangimento.
Em outra situação, ao cruzar com Buzzi pelo corredor interno, foi novamente molestada. O ministro, sempre em silêncio, não parecia considerar a gravidade dos atos e criava oportunidades para ficar a sós com a vítima.
O episódio mudou de figura na sala pessoal de Buzzi, quando ele agarrou com força e apertou a nádega da secretária. Ela reagiu, segurou o braço do ministro e o afastou. Buzzi recuou e pediu desculpas.
Fragilizada pelas investidas do magistrado, a secretária procurou a chefia do gabinete para relatar o que vivia. A conversa com a chefe de gabinete serviu como desabafo, mas não resultou em providências efetivas.
“Estou chocada”, disse a principal assessora de Buzzi ao ouvir o relato. “Vou mudar seu horário”, afirmou, apresentando o que considerou a única solução para enfrentar o assédio.
Ao perceber que nada seria feito, a mulher adoeceu, mergulhou em um estado permanente de tristeza e acabou pedindo para deixar o gabinete de Buzzi. Os problemas psicológicos decorrentes do abuso deixaram marcas, inclusive perda parcial da visão.
Na quarta‑feira da semana passada, ao ler a notícia publicada pelo Radar sobre a denúncia de uma jovem de 18 anos que se dizia vítima do ministro, ela tomou coragem para denunciar. Em seu longo e ininterrupto relato apresentado ao CNJ — já em poder de ministros do STJ — a mulher chorou em diferentes momentos ao reviver a experiência e explicou que não havia denunciado antes por medo de não ser acreditada.
Além de detalhar o assédio sofrido, entregou aos investigadores uma gravação da conversa que teve com a chefe de gabinete de Buzzi, que constitui uma das principais provas. Nesta semana, três assessores de Buzzi confirmaram a versão da ex‑assessora aos ministros do STJ.
