O episódio ocorrido na formatura do curso de Direito da Universidade de São Paulo deve ser lembrado, não como exemplo de excelência acadêmica, mas como marco da degradação ética da universidade pública brasileira.
O ministro Alexandre de Moraes, ocupante de um dos cargos mais elevados da República, transformou a solenidade acadêmica em palco de vaidade, sarcasmo e deboche. Ele zombou de um réu que havia condenado, ironizou decisão que proferiu e riu da situação de um idoso doente sob custódia do Estado. Isso não constitui autoridade, mas soberba.
Não se tratou de aula nem de discurso institucional. Foi um espetáculo grotesco de autocomplacência, no qual o poder aplaude a si mesmo, sem freio moral, empatia ou humanidade. Quando um juiz ri do jurisdicionado, o Direito já morreu; resta apenas força nua, disfarçada de toga.
Nada foi tão revelador quanto os aplausos, o entusiasmo juvenil e as gargalhadas. Ficou evidente que a universidade deixou de formar juristas e passou a produzir militantes de toga, adoradores do poder, prontos a aplaudir qualquer abuso quando provém do “lado certo”.
Aplausos à humilhação não são neutros; são escolhas morais. Quem aplaude o escárnio hoje pode praticá‑lo amanhã no balcão do fórum, na sala de audiência ou no gabinete refrigerado. Quem aprende a rir da dor alheia aprende, com igual facilidade, a ignorá‑‑la.
O mais assustador é perceber que aqueles jovens, que deveriam estudar Constituição, dignidade da pessoa humana e devido processo legal, vibraram não com ideias, mas com a desumanização; não com o Direito, mas com o poder exercido sem limites.
A universidade, que deveria ser espaço de pensamento crítico, converteu‑se em linha de montagem ideológica. Não se ensina a pensar, ensina‑se a repetir; não se ensina a duvidar, ensina‑se a aplaudir. Forma‑se, assim, não o jurista, mas o executor obediente do arbítrio.
A pergunta deixa de ser retórica e torna‑se assustadora: que tipo de juízes, promotores, delegados e advogados está sendo gestado nesse ambiente moralmente falido? Que justiça pode surgir de uma geração que confunde crueldade com virtude e ironia com inteligência?
O que se viu naquela formatura não foi apenas uma vergonha acadêmica, mas um alerta. Um aviso claro de que, quando o poder ri da própria brutalidade e a juventude o aplaude, o Estado de Direito já está em coma. Nesse cenário, a toga deixa de ser símbolo de justiça para se tornar fantasia de carnaval autoritário.
Amarilio Tadeu Freesz de Almeida. Procurador de Justiça aposentado do MPDFT, advogado e professor de Direito.
