O assunto que tem mobilizado o universo das artes marciais é a acusação de assédio sexual feita por uma jovem atleta contra um conhecido expoente do jiu‑jitsu.
Não me posiciono ao lado de nenhum dos envolvidos, pois não disponho de elementos que comprovem quem está dizendo a verdade e quem está mentindo.
Há tempos, defensores afirmam que mulheres deveriam treinar apenas com mulheres e homens apenas com homens. Não pratico jiu‑jitsu, porém, segundo informações, algumas academias já adotam essa separação.
A mesma discussão sobre o limite do contato físico entre homens e mulheres ocorre na dança, resumida na célebre frase de Bernard Shaw:
“A dança é a expressão vertical de um desejo horizontal”.
Há uma realidade incontornável: quando duas pessoas saudáveis permanecem em contato próximo, o instinto sexual pode ser despertado, o erótico se espalha e surge a hipocrisia de quem alega tratar‑se apenas de dança, treino ou procedimento médico.
A situação se complica quando a mulher é o tipo preferido do homem que a toca, e ele também é o tipo preferido dela; nesse caso, o roceiro, a pressão prolongada e o contato nas áreas sensíveis geram forte tensão sexual, que costuma ser resolvida posteriormente em ambiente privado.
Ninguém se esfrega impunemente, como demonstram os inúmeros casais que surgiram no cinema e na TV após atuarem “profissionalmente” em cenas de amor.
O mesmo fenômeno ocorre em consultas médicas, onde o toque e a introdução de dedos são necessários: se a paciente considera o médico atraente e o sentimento é recíproco, torna‑se impossível impedir que o erotismo permeie todo o procedimento, ainda que ambos tentem manter a neutralidade.
O mesmo acontece em academias, quando algumas mulheres não conseguem aprender apenas por instruções auditivas e acabam recorrendo a professores que preferem ensinar por meio do toque.
Não faço esse relato para policiar a vida de ninguém. Cada pessoa age como quiser. Não me importo com isso.
Entretanto, não se pode negar que há material rico para estudos psicológicos e antropológicos sobre atividades humanas cujos participantes insistem em negar o risco evidente e latente do contato corporal contínuo.
Marco Frenette. Escritor.
