Se a democracia é um organismo vivo, a versão gerida pelo atual governo encontra‑se em estado terminal, respirando por aparelhos. Não se trata mais apenas de divergência ideológica ou de disputas partidárias comuns ao jogo político. O que assistimos nos últimos meses é a falência múltipla dos órgãos vitais da República: da diplomacia que envergonha a nação perante o mundo livre à gestão interna que abandona seus cidadãos mais vulneráveis nas filas do INSS.
O diagnóstico é claro: o governo Lula perdeu o pulso da realidade e, ao tentar salvar companheiros ideológicos, arrasta a imagem do Brasil para a lama.
O suicídio diplomático: de mãos dadas com o terror
A política externa brasileira, outrora respeitada por seu pragmatismo, transformou‑se em um braço de relações públicas para regimes autocráticos. O caso mais recente — e repugnante — é a nota oficial do Itamaraty sobre as tensões envolvendo o Irã.
Enquanto as grandes democracias ocidentais condenam o financiamento do terrorismo e a desestabilização global promovida por Teerã, o governo brasileiro optou por um palavreado morno, covarde e equidistante. Ao se recusar a chamar o terror pelo nome, Lula não apenas isola o Brasil das potências econômicas e democráticas; ele sinaliza que, para a esquerda no poder, a fidelidade ao “Sul Global” antiocidental vale mais do que a vida de inocentes. O Brasil não é mais um “anão diplomático”; tornou‑se um gigante moralmente cego.
O silêncio ensurdecedor sobre Maduro
Se a postura com o Irã foi um erro, a reação (ou falta dela) à prisão de Nicolás Maduro é uma confissão de culpa. O mundo assiste ao desmoronamento da ditadura venezuelana, um regime que esfomeou seu povo e exportou refugiados aos milhões para as nossas fronteiras. A justiça internacional finalmente alcança o tirano.
E qual é a postura do Palácio do Planalto? Um silêncio constrangedor, entrecortado por notas de “preocupação” que parecem lamentar não o sofrimento dos venezuelanos, mas o destino do carcereiro. A lealdade de Lula ao chavismo não é apenas um erro estratégico; é uma afronta à democracia que ele diz defender. Ao não celebrar a justiça contra um ditador, o governo brasileiro mostra que sua “democracia” é seletiva: vale para os amigos, mas nunca para os opositores.
O escândalo do INSS: a face cruel da incompetência
Enquanto o governo gasta capital político defendendo ditadores em hotéis de luxo internacionais, o brasileiro comum paga a conta em casa. O escândalo do INSS é a prova cabal de que a gestão petista, que se autoproclama “pai dos pobres”, é, na prática, uma máquina de ineficiência.
Filas intermináveis, sistemas inoperantes e denúncias de desvios e fraudes mostram um desmonte administrativo sem precedentes. Não é apenas burocracia; é crueldade. Idosos e deficientes aguardam meses por perícias que nunca chegam, enquanto o orçamento é canibalizado para sustentar a máquina pública inchada e as emendas parlamentares. A “picanha” prometida na campanha transformou‑se na humilhação da fila da previdência.
O paciente não reage
A “democracia inabalável” vendida pelo governo é, na verdade, um regime que prioriza a ideologia sobre a técnica, e o partidarismo sobre o patriotismo. Diplomaticamente isolado no lado errado da história e administrativamente colapsado, o governo Lula coloca o Brasil na UTI.
Resta saber se as instituições e a sociedade civil terão a força necessária para realizar a cirurgia de emergência que o país precisa, ou se assistiremos passivamente ao óbito da nossa relevância internacional e da nossa dignidade interna.
Mario Robert Gonçalves Souto. Analista Político
