A “homenagem” na Sapucaí deu muito errado. O prejuízo foi alto — e prejuízo alto em eleição presidencial significa falta de controle. Quando o time está desnorteado, atirando para todos os lados, a culpa é da liderança. As críticas vieram de imediato. O evento se consagrou como um dos piores atos de campanha da história do marketing político. Um caso acadêmico indelével.
Na esquerda, o fundo do poço tem subsolo. O partido não se retratou. Dobrou a aposta e investiu contra a opinião pública. O fato é que não se responde a críticas com ameaças judiciais. Isso deveria ser uma máxima — é, no mínimo, bom senso. 86% do país é cristão e se ofendeu.
Então o governo deu outro passo e, acreditando que ninguém percebia, viajou. Lula voou para a Índia para “participar de um encontro”. Novidade zero. Trata-se da marca registrada do presidente: fugir em momentos de crise. Errou? Pega o avião e sai de cena. A estratégia funcionou até ficar manjada. O termo correto para o momento é “patético”.
Se a questão se resumisse à opinião pública, já seria um problema enorme. Mas só piora: o Planalto estava bem nas pesquisas antes do Carnaval para se dar ao luxo de errar dessa forma? Não. Muito menos para ameaçar críticos. Fugir de cena provou a falta de margem de manobra do governo.
Lula pediu uma guerra — deliberadamente. Mas esqueceu a máxima militar: ganha uma guerra quem erra menos. E a sucessão de erros graves acelerou a decisão do Centrão. Os caciques dos diretórios nacionais perderam as ilusões com a candidatura petista e sinalizaram.
Abandonar Lula, porém, não significa apoiar Flávio Bolsonaro. Pelo contrário: o vácuo de poder gerado na esquerda abre espaço para duas coisas: 1) lideranças de esquerda disputarem o espólio, como ocorreu com Biden e Kamala; 2) avanço do centro sobre o eleitorado decepcionado. E foi exatamente isso que o Centrão sinalizou.
Kassab publicou um blefe: o PSD terá candidato ao Planalto, apostando em Ratinho Jr., Caiado e Eduardo Leite. A mensagem é clara — apoiar Lula é saltar sem paraquedas. E o centro nunca joga para perder.
A contrapartida foi anunciada há uma semana: a vaga de vice de Tarcísio em São Paulo. Se o governador paulista ceder, o cacique volta atrás e o PSD abraça Flávio. As vantagens são evidentes:
- 891 prefeituras
- Tempo de TV e rádio
- Orçamento de campanha
- Bases expandidas
Na prática, o cenário proposto pelo PSD significa vitória no primeiro turno. É ruim? Sim. Há risco de impeachment no primeiro desentendimento. Amor de verão não é casamento — e em Brasília, casamento só com separação total de bens.
No cálculo eleitoral, a pergunta sempre é: e do contrário? O que acontece se Flávio disser não? Simples: Kassab cumpre o blefe, lança um candidato para tirar votos da direita e volta a negociar no segundo turno.
A mensagem do Centrão é clara: a decisão foi tomada e a aposta é Flávio. A tensão com Kassab é questão de ajuste fino. Flávio não pode ceder de imediato; Kassab não pode recuar, mas tempo é um produto caro. O impasse tem sentido e direção.
Estratégia é a arte de posicionar recursos. Sun Tzu manda “conhecer o inimigo e a si mesmo” para ser capaz de prever os próximos passos do adversário. Miyamoto Musashi diz que só há estratégia quando o inimigo não é capaz de surpreendê-lo.
O silêncio petista não é desistência ou recuo — é mudança de rota. O time petista atual demonstrou incompetência total à frente da campanha de 2026. O alarme no espectro vermelho é uma convocação, e só um nome é apontado como capaz de virar o jogo agora: Dirceu.
A reação da esquerda nos próximos dias será violenta — e, dessa vez, eficaz. As semanas que antecedem a Copa do Mundo serão épicas. Essa disputa presidencial entrará para a história. Será o primeiro teste real para Flávio Bolsonaro.
O jogo começou.
Ricardo Roveran — Jornalista. @RicardoRoveran
