O relatório elaborado pela Polícia Federal no âmbito do caso TH Joias, com 188 páginas de extensão, não se limita a investigar o traficante que dá nome à operação. O documento também detalha diálogos entre o então presidente afastado da Alerj, Rodrigo Bacellar, e o ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, revelando, segundo os investigadores, uma relação marcada por proximidade e pedidos de intervenção em questões judiciais.
De acordo com a PF, mensagens de WhatsApp extraídas do aparelho celular de Bacellar indicam uma dinâmica de troca de favores entre ele e Cabral. Para os investigadores, o teor das conversas vai além de uma amizade pessoal, apontando para possíveis tentativas de influência no Judiciário fluminense.
Em maio de 2025, conforme descrito no relatório, Cabral solicitou que Bacellar recebesse sua advogada para tratar da “situação de improbidade” na Sexta Câmara de Direito Público no TJRJ. Ao fazer o pedido, o ex-governador ressaltou a relevância do assunto com a frase: “Muito importante para mim”.
A Polícia Federal sustenta que o objetivo de Cabral era conseguir que o julgamento ao qual respondia fosse retirado de pauta. Com o avanço dos dias, as mensagens teriam se tornado mais insistentes. No próprio dia previsto para a sessão, Cabral foi informado de que o processo havia sido retirado da pauta, o que, segundo o relatório, atendeu ao pleito feito anteriormente.
A reação do ex-governador foi registrada em nova mensagem enviada a Bacellar: “Irmão! Saiu de pauta o meu processo. Você é um querido!!!! Te amo, amigo!!!”.
Para os investigadores, esse trecho evidencia o grau de confiança e a expectativa de resultado favorável.
No entendimento da PF, essas interações não podem ser tratadas como meros gestos de amizade. O relatório argumenta que Bacellar teria utilizado sua posição política para criar vínculos de dependência e acumular capital político, articulando, nas palavras do documento, “favores espúrios” em diferentes esferas de poder.
Os investigadores mencionam ainda que Sérgio Cabral seria um exemplo representativo da rede de influência atribuída a Bacellar. Essa estrutura, segundo a apuração, teria contribuído para fortalecer sua trajetória política e sustentar o que é descrito como um “Estado paralelo” no Rio de Janeiro — expressão usada para caracterizar a suposta atuação coordenada à margem das instituições formais.
O relatório também cita a atuação de outros personagens. Entre eles, Macário Judice, apontado como elo que teria aproximado Bacellar de tribunais e ampliado sua influência sobre decisões judiciais. Conforme a PF, Macário teria assinado decisões favoráveis não apenas a Cabral, mas também à ex-mulher do ex-governador, Adriana Ancelmo.
Todo o material foi encaminhado ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, que deverá avaliar os próximos passos a serem adotados a partir dos achados da investigação.
