“Uma coisa é certa o sistema financeiro não será mais o mesmo depois do escândalo do Master. Todos nós, juntos, precisamos fazer o que a CVM não fez”.
Essa fala de Renan Calheiros, reproduzida na coluna da jornalista Vera Rosa (veja ao final do texto), soa mais como ameaça do que como promessa. Certamente o inefável senador, não exatamente conhecido pela sua honestidade, não está falando em fortalecimento dos órgãos de controle. Pelo contrário: a frase significa a substituição do corpo técnico pela política. “Todos juntos”.
Sempre lembro aqui do caso Madoff. O grande golpista do mercado financeiro americano enganou milhares de investidores durante anos, antes de ser denunciado. A SEC foi leniente, e não identificou o golpe até que atingisse cifras astronômicas. A diferença fundamental para o caso brasileiro é que Bernard Madoff foi processado e condenado em menos de seis meses a mais de 150 anos de prisão. Morreu enjaulado, vestindo o uniforme laranja dos presidiários. Alguém consegue imaginar Vorcaro e todos os seus cúmplices na mesma situação?
O crime sempre está um passo à frente, e golpes sempre ocorrerão. O que faz a diferença é o efeito, a demonstração de condenações e penas para valer, a única coisa capaz de inibir de verdade os bandidos.
Quando Calheiros fala em “fazer o que a CVM não fez”, certamente não está se referindo a uma reforma do sistema judiciário para que bandidos de colarinho branco morram na cadeia pelos seus crimes contra a economia popular. Seu objetivo é contaminar, com a política, uma agência que deveria ser técnica. Está em jogo, no caso, a presidência da CVM, atualmente com um indicado por seus desafetos políticos.
Em um país em que tipos como Sérgio Cabral e Marcelo Odebrecht estão por aí, livres, leves e soltos, é até piada de mau gosto falar em “falha dos órgãos de controle”. Banco Central e CVM fazem o que podem, dentro de suas limitações. A coisa desanda quando chega no sistema judiciário contaminado pela política. Renan Calheiros só está vestindo a capa do justiceiro porque o butim foi dividido entre seus adversários políticos.
Marcelo Guterman. Engenheiro de Produção pela Escola Politécnica da USP e mestre em Economia e Finanças pelo Insper.
