Apesar de toda a retórica de intervenção política e da celebração dos democratas ao redor do mundo, está ficando cada vez mais claro que a ação do governo Trump teve como objetivo principal capturar o chefe de um cartel de drogas, e não depor um governo. O fato de esse chefe de cartel também ser presidente da Venezuela não impediu a medida dos Estados Unidos. Assim, Nicolás Maduro será julgado em solo americano por tráfico de drogas, e não perante o tribunal de Haia por crimes contra a humanidade.
Se o propósito fosse derrubar o regime, os americanos estariam administrando o país interinamente – como, aliás, afirmou Trump nas primeiras declarações – e preparando a posse da oposição. Não é isso que está acontecendo. Quem assumiu a presidência foi a vice‑presidente Delcy Rodríguez, tão chavista e ilegítima quanto seu antecessor.
As regras para novas eleições exigem que a Assembleia Nacional chavista declare o cargo presidencial como vago. Ainda não há indicação de quando isso ocorrerá.
Há quem argumente, de forma plausível, que o verdadeiro interesse do governo Trump seja retomar a exploração do petróleo venezuelano por petrolíferas americanas. Nesse cenário, Delcy Rodríguez poderia ser amigável aos interesses dos Estados Unidos e permanecer no cargo com o beneplácito da Casa Branca. Isso deixaria claro que a questão é, sobretudo, comercial e não humanitária.
Para desgosto dos democratas, esse arranjo poderia ser, inclusive, benéfico aos interesses do povo venezuelano. Permitir o aumento da exploração petrolífera por meio de parcerias com empresas privadas elevaria a riqueza e o bem‑estar da população ao longo do tempo. Os chavistas que permanecem no poder poderiam se perpetuar, desde que não interfiram nas empresas americanas. Não seria a primeira vez que os EUA apoiam uma ditadura alinhada aos seus interesses.
Marcelo Guterman. Engenheiro de Produção pela Escola Politécnica da USP e mestre em Economia e Finanças pelo Insper.
