Há quatro anos, em 31 de março de 2022, dois governadores do PSDB deixavam seus cargos para tentar uma indicação do partido ao Palácio do Planalto: João Doria em São Paulo e Eduardo Leite no Rio Grande do Sul.
Em agosto do mesmo ano, na data limite para o anúncio das chapas, o PSDB indicou a senadora Mara Gabrilli para vice na chapa da emedebista Simone Tebet. Nesses quase cinco meses, brigas internas no ninho dos tucanos fizeram com que Doria e Leite desistissem de seus projetos. Doria voltou para a iniciativa privada, enquanto Leite deu uma reviravolta de 180 graus e candidatou-se à reeleição em seu Estado.
O governador gaúcho quase não chegou ao segundo turno, mas com a ajuda dos votos dos petistas, derrotou o candidato bolsonarista Onyx Lorenzoni.
Experiente, Leite deixou o PSDB em maio do ano passado e migrou para o partido de Gilberto Kassab, com o projeto claro de candidatar-se à presidência por um partido com comando definido, e não a confusão que virou o PSDB. Sua avaliação, provavelmente, era que ao PSD só faltava o “B” para tornar-se o novo partido de centro da política brasileira, e que ele seria o candidato que marcaria esse novo posicionamento político do partido.
Faltou combinar com Kassab. Ao comandante do PSD coube avaliar se queria um candidato que agregasse mais votos à direita ou à esquerda. Os eleitores de Leite são muito mais anti-bolsonaristas, ao passo que os eleitores de Caiado são muito mais anti-petistas. Em uma eleição de rejeições, Kassab optou por opor-se a Lula e não a Bolsonaro.
Leite se diz “desencantado” com o PSD e decidiu encerrar sua carreira política. Assim como Ratinho Jr, avisou que migrará para a iniciativa privada ao término de seu mandato. Mais um João Doria da política, para quem a contribuição para a vida política nacional se reduziu a um projeto pessoal de ser presidente da República. Algo decepcionante para a kombi tucana.
Marcelo Guterman. Engenheiro de Produção pela Escola Politécnica da USP e mestre em Economia e Finanças pelo Insper.
