O ex-prefeito de Lajeado, Marcelo Caumo, foi preso na manhã desta quinta-feira (26) durante nova fase de operação conduzida pela Polícia Federal. A investigação apura suspeitas de desvio de verbas federais destinadas à reconstrução do município após as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul. A prisão é temporária, com duração inicial de cinco dias, podendo ser prorrogada conforme decisão judicial. Caumo comandou o Executivo municipal entre 2017 e 2024. Segundo informações, os fatos investigados não envolvem a atual administração da cidade. De acordo com nota oficial divulgada pela prefeitura, a ação integra investigação relacionada a contratos de prestação de serviços terceirizados firmados em períodos anteriores à atual gestão. O comunicado acrescenta que o Executivo municipal tem colaborado com as autoridades desde o início das apurações. Além do ex-prefeito, uma empresária apontada como integrante do grupo econômico supostamente beneficiado foi presa. Uma vereadora também foi afastada do cargo por determinação judicial. Os nomes delas não foram divulgados até o momento. A investigação foi batizada de Operação Lamaçal e representa um desdobramento de ação realizada em novembro de 2025. Na ocasião, Caumo ocupava o cargo de secretário estadual de Desenvolvimento Urbano. Após a repercussão do caso, ele colocou a função à disposição, e o pedido de exoneração foi aceito. Conforme a Polícia Federal, a análise do material apreendido na etapa anterior reforçou indícios de direcionamento de licitações no âmbito da prefeitura. “As investigações identificaram irregularidades em três licitações da Prefeitura de Lajeado envolvendo empresas de um mesmo grupo econômico, contratadas para prestar serviços de assistência social. Há indícios de que as escolhas não observaram a proposta mais vantajosa e de que os valores pagos estavam acima dos preços de mercado”, informou a corporação. Ao todo, foram cumpridos 20 mandados de busca e apreensão e dois de prisão temporária, além de medidas de sequestro de veículos e bloqueio de ativos financeiros. As ordens judiciais partiram do Tribunal Regional Federal da 4ª Região. As diligências ocorreram em Lajeado e também nos municípios de Muçum, Encantado, Garibaldi, Salvador do Sul, Fazenda Vilanova, Novo Hamburgo e Porto Alegre. Os investigados poderão responder por crimes como desvio ou aplicação indevida de recursos públicos, contratação direta ilegal, fraude em licitação, corrupção ativa e passiva, associação criminosa e lavagem de dinheiro. Segundo a PF, uma das apurações envolve contratação emergencial de empresa para fornecer profissionais como psicólogos, assistentes sociais, educadores sociais, auxiliares administrativos e motoristas. A dispensa de licitação teria sido fundamentada no estado de calamidade pública decretado em 2024. O valor total de dois contratos analisados no inquérito soma aproximadamente R$ 120 milhões. O advogado Jair Alves Pereira, responsável pela defesa de Marcelo Caumo, declarou que ainda não teve acesso à decisão judicial que fundamentou a prisão do ex-prefeito. Em nova manifestação oficial, a prefeitura reforçou: “A Prefeitura de Lajeado informa que, na manhã desta quinta-feira (26/02), a Polícia Federal realizou diligências junto a setores do Executivo municipal, no âmbito da segunda fase da Operação Lamaçal. A ação integra investigação relacionada a contratos de prestação de serviços terceirizados firmados em períodos anteriores à atual gestão. Desde o início da operação a Administração Municipal vem colaborando com as investigações e prestando todas as informações e fornecendo documentos solicitados, reafirmando seu compromisso com a transparência, a legalidade e a responsabilidade na gestão dos recursos públicos.”
Tarcísio não vai a manifestação na Paulista, mas promete vídeo de apoio ao ato de Nikolas Ferreira
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), não participará presencialmente da manifestação convocada pelo deputado Nikolas Ferreira (PL) para domingo (1º/3), na Avenida Paulista. Apesar da ausência física, o chefe do Executivo paulista se comprometeu a gravar uma mensagem em vídeo que será exibida ao público durante o ato. Segundo interlocutores, o parlamentar mineiro confirmou que Tarcísio não estará presente por já ter compromisso de viagem programado. Mesmo assim, o governador fará questão de se manifestar por meio de gravação, mantendo sua sinalização política favorável ao evento. O motivo da ausência é uma agenda internacional na Alemanha, onde Tarcísio participará do evento Intercontinental Dialogues. O encontro reúne representantes do meio jurídico, político e empresarial de diferentes países, com foco em debates institucionais e econômicos. Entre as autoridades brasileiras confirmadas no evento alemão estão o ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça, o presidente da Câmara dos Deputados Hugo Motta (Republicanos-PB), além dos ministros Alexandre Padilha (Saúde) e Alexandre Silveira (Minas e Energia).
Homem invade shopping e mata funcionária de joalheria a tiros; suspeito é ex-namorado da vítima
Uma tragédia abalou clientes e funcionários do Golden Square Shopping, localizado no bairro Jardim do Mar, em São Bernardo do Campo, na noite desta quarta-feira (25). Uma colaboradora da joalheria Vivara foi assassinada a tiros enquanto exercia suas funções na loja. Segundo informações preliminares da Polícia Militar, o principal suspeito do crime é o ex-namorado da vítima, cuja identidade ainda não foi oficialmente divulgada. Inicialmente, a ocorrência chegou a ser tratada como possível tentativa de assalto. Contudo, após a chegada das equipes ao centro comercial, constatou-se que o homem teria rendido uma das vendedoras antes de efetuar o disparo contra a ex-companheira. A mulher foi rapidamente socorrida e encaminhada ao hospital em estado grave, mas, apesar dos esforços médicos, não resistiu aos ferimentos. Durante a ação criminosa, o autor dos disparos acabou sendo atingido por tiros efetuados por um policial civil que estava nas proximidades e presenciou o ataque dentro da loja. Até o momento, não foram divulgadas informações atualizadas sobre o estado de saúde do suspeito. Em posicionamento oficial, a administração do shopping manifestou pesar pelo episódio e informou que está prestando suporte aos envolvidos. “O shopping lamenta o caso de feminicídio contra a funcionária de uma de suas lojas na noite desta quarta-feira (25/2) e se solidariza à família. O shopping está oferecendo todo o apoio ao lojista, à família da vítima e está à disposição das autoridades”, afirmou a nota. As circunstâncias do crime seguem sob apuração pelas autoridades competentes. Até agora, não há confirmação de motivação além do histórico de relacionamento entre vítima e autor, elemento que reforça a linha investigativa de feminicídio — crime caracterizado quando a mulher é morta em contexto de violência doméstica ou por razões de gênero.
Deputado pede prisão de Lulinha por suposto esquema bilionário no INSS
O deputado federal Ubiratan Sanderson (PL-RS) protocolou nesta quarta-feira, 25, uma representação junto à Procuradoria-Geral da República (PGR) solicitando a decretação de prisão preventiva de Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A iniciativa amplia a tensão em torno de denúncias envolvendo o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O pedido se baseia em relatos oriundos de delações premiadas que mencionam ex-dirigentes do INSS. Segundo o parlamentar, os depoimentos apontariam para a atuação de agentes políticos e empresários em um suposto esquema responsável por autorizar descontos indevidos em benefícios previdenciários, atingindo milhares de aposentados em todo o país. No documento encaminhado ao procurador-geral Paulo Gonet, Sanderson sustenta que Lulinha teria sido beneficiado por vantagens consideradas ilícitas, por meio de intermediários e operadores vinculados às irregularidades investigadas. Ao justificar o pedido de prisão preventiva, o deputado argumenta que a medida seria necessária para assegurar a aplicação da lei penal e preservar a integridade das investigações. Ele destaca que Lulinha se mudou para a Espanha logo após a divulgação das denúncias, circunstância que, na avaliação do parlamentar, indicaria possível risco de evasão e poderia dificultar a atuação das autoridades brasileiras. Entre os enquadramentos jurídicos mencionados estão corrupção passiva (artigo 317 do Código Penal), organização criminosa (Lei nº 12.850/2013) e lavagem de dinheiro (Lei nº 9.613/1998). Tais tipificações, caso confirmadas, configurariam crimes de elevada gravidade, sobretudo por envolverem recursos destinados a beneficiários da Previdência Social. Apesar da contundência do pedido, Sanderson ressalta no documento que a solicitação não implica antecipação de culpa, preservando o princípio constitucional da presunção de inocência. Como alternativas à prisão preventiva, ele sugere medidas cautelares diversas, entre elas a proibição de deixar o país, o uso de tornozeleira eletrônica e a suspensão temporária de atividades empresariais. O parlamentar classifica o caso como de “gravidade concreta acentuada” e estima que os desvios possam alcançar cifras bilionárias, afetando diretamente grupos socialmente vulneráveis. Ele também avalia que a influência política e econômica atribuída a Lulinha poderia dificultar a colheita de provas e impactar testemunhas enquanto o investigado permanecer em liberdade.
Delações premiadas sobem de nível e colocam Lulinha no centro das investigações
Brasília voltou a tremer. As novas delações premiadas firmadas nos bastidores das investigações mais sensíveis do momento estão subindo degraus. E subindo rápido. O que antes parecia restrito a operadores e intermediários agora avança para nomes ligados ao núcleo político. Entre eles, segundo relatos que circulam nas tratativas oficiais, estaria Lulinha. As menções ainda estão sob análise das autoridades. Não há condenação. Mas o fato de o nome aparecer em acordos formais de delação já muda completamente o tabuleiro. Quando delatores começam a apontar para cima, o clima muda. Fontes próximas às apurações indicam que os depoimentos tratam de possíveis articulações, influência em decisões estratégicas e conexões que, se comprovadas, podem revelar algo muito maior do que se imaginava inicialmente. Aliados tentam tratar como narrativa de quem quer reduzir pena. O problema é que delação sem prova não se sustenta — e os investigadores sabem disso. Se os acordos avançam, é porque há elementos sendo analisados. Nos bastidores do Congresso, o comentário é um só: a pressão aumentou. O governo evita o assunto. O silêncio fala alto. A pergunta que começa a ecoar em Brasília é direta: até onde essas delações podem chegar? Os próximos movimentos da investigação dirão se estamos diante de mais um capítulo político ou de algo capaz de provocar um abalo estrutural no centro do poder. O fato é que, quando o nome de alguém passa a circular em delações formais, o jogo deixa de ser apenas político. E passa a ser sobrevivência.
Erika Hilton detona proposta de porte de arma para pessoas trans e parte para ataques pessoais
A discussão sobre segurança pública voltou a gerar confronto político em Brasília após uma proposta relacionada ao porte de arma para pessoas trans. A iniciativa, apresentada pelo deputado Paulo Bilynskyj, provocou reação imediata da deputada trans Erika Hilton, que criticou duramente a ideia. Para a parlamentar, o debate estaria focado no ponto errado. Ela afirmou que a população trans não reivindica acesso a armamento, mas sim políticas públicas, proteção institucional e garantia de direitos básicos. A deputada classificou a proposta como inadequada e acusou o autor de buscar visibilidade com o tema. Hilton também fez ataques pessoais ao deputado e questionou sua atuação política, mencionando ainda episódios passados envolvendo o parlamentar. O projeto estabelece a possibilidade de concessão de porte de arma com base na autodeclaração de gênero. A proposta passou a dividir opiniões e ampliou o clima de confronto ideológico entre parlamentares ligados a pautas de segurança e representantes de movimentos identitários no Congresso.
PGR Paulo Gonet critica STF por suspensão de penduricalhos, mas só reagiu quando atingiu o próprio bolso
Paulo Gonet criticou decisões dos ministros do STF Flávio Dino e Gilmar Mendes. Algo considerado impensável até pouco tempo atrás. O motivo que levou Gonet a adotar esse posicionamento foram os penduricalhos. O Procurador-Geral da República criticou as decisões liminares de Dino e Gilmar, que suspenderam os penduricalhos na magistratura e no serviço público dos Três Poderes. Os pagamentos suspensos têm caráter indenizatório e elevam remunerações a patamares acima do teto constitucional, criando os chamados supersalários. Gonet alega que a corte extrapolou os limites da jurisdição constitucional e decidiu uma causa além dos limites daquela lide, ao suspender os penduricalhos. Neste ponto, está coberto de razão. No entanto, decidir fora do rito próprio é algo que os ministros do STF têm feito rotineiramente desde que ele tomou posse, mas até aqui a PGR tem feito cara de paisagem. A diferença é que agora o STF avançou sobre a remuneração dos membros do Ministério Público, dentre outros. Aí, não pode!
Inquérito do Fim do Mundo: da censura à Crusoé ao medo que atinge os algozes de Bolsonaro
O Inquérito das Fake News (Inq 4.781), aberto em 2019 por Dias Toffoli e relatado por Alexandre de Moraes, nunca teve como objetivo combater desinformação. Desde o primeiro dia, serviu como instrumento para silenciar vozes incômodas ao establishment do Supremo Tribunal Federal. O caso emblemático foi a censura imediata à reportagem da revista Crusoé “O amigo do amigo do meu pai”, que revelava ligações de Toffoli com a Odebrecht. Moraes determinou a remoção da matéria, aplicou multa diária de R$ 100 mil e ignorou o pedido de arquivamento da Procuradoria-Geral da República. Não se tratava de defesa da honra institucional, mas de censura para proteger o clã do Supremo de qualquer escrutínio. Sete anos depois, o inquérito permanece ativo, sem prazo de validade – um monstro eterno, apelidado de “Inquérito do Fim do Mundo”. Em fevereiro de 2026, a OAB Nacional protocolou ofício ao presidente Edson Fachin pedindo o encerramento imediato dessa aberração jurídica. A entidade mencionou “investigações de natureza perpétua”, “desgaste progressivo da confiança social” e “extrema preocupação institucional”. A OAB, que demorou para reagir, agora admite o óbvio: o inquérito se expandiu indefinidamente, violando devido processo legal, segurança jurídica e liberdade de expressão. A mídia repercutiu o pedido: G1, CNN, Gazeta do Povo, Agência Brasil e até The Economist destacaram o escândalo. A revista britânica foi direta ao afirmar que o STF está “envolvido em um vasto escândalo”, com sigilo excessivo e uso do inquérito para abafar apurações sobre ligações de ministros com o falido Banco Master. Contratos milionários da esposa de Moraes (R$ 129 milhões) e negócios familiares de Toffoli vieram à tona. Em resposta, Moraes abriu desdobramento no mesmo inquérito para investigar servidores da Receita Federal que supostamente vazaram dados sigilosos de parentes de ministros. Quatro auditores viraram alvo de busca e apreensão – uma operação de intimidação que revoltou o funcionalismo público e reforçou a percepção de que o Judiciário usa poder de polícia para se blindar de investigações. O inquérito não nasceu para perseguir golpistas. Nasceu para censurar. Agora, ao atingir jornalistas que noticiaram o Banco Master e auditores que tocaram em dados sensíveis, revela sua essência: intimidação seletiva. Quem questiona o STF vira réu no “Fim do Mundo”. É fundamental registrar o que a grande mídia fez durante a perseguição a Bolsonaro e aos bolsonaristas (2019-2022/2023): silêncio cúmplice ou apoio explícito. Não houve matérias críticas às irregularidades gritantes do inquérito – instauração de ofício, sem provocação da PGR, relator escolhido a dedo, prorrogações infinitas, censura prévia e violações constitucionais. Pelo contrário: Globo, Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e outros veículos publicaram reportagens e editoriais relativizando ou defendendo que “contrariar a Constituição era possível” para proteger a democracia de supostas ameaças bolsonaristas. O inquérito era visto como necessário, mesmo que atropelasse garantias fundamentais. A “defesa das instituições” justificava tudo – inclusive rasgar a Constituição. Exemplo concreto dessa fase inicial: na primeira grande operação de busca e apreensão, em 27 de maio de 2020, a Polícia Federal cumpriu 29 mandados contra aliados de Bolsonaro. Cinco nomes emblemáticos foram alvos diretos: Roberto Jefferson (ex-deputado e presidente do PTB), Luciano Hang (dono da Havan), Allan dos Santos (blogueiro do Terça Livre), Sara Winter (ativista bolsonarista) e Bernardo Kuster (youtuber). Esses cidadãos tiveram casas invadidas, equipamentos apreendidos e contas bloqueadas, tudo sob o pretexto de “fake news” e “ameaças ao STF” – sem que a grande mídia questionasse o devido processo legal ou a competência do inquérito. Mas o que mais chama atenção é o timing do pedido da OAB e da repercussão atual: o medo real é que o inquérito, criado para caçar bolsonaristas e aliados de Bolsonaro, chegue até os próprios perseguidores. Aqueles que aplaudiram prisões, bloqueios de redes sociais e cassações agora tremem ao ver que o arbítrio não tem lado ideológico fixo. O monstro que devorou opositores pode virar contra quem o alimentou. O medo se espalha: “e se chegar em mim?”. E o pior horizonte se aproxima. Em 2027, Alexandre de Moraes assume a presidência definitiva do STF (já foi vice de Fachin no biênio 2025-2027, e a sucessão por antiguidade é tradição). Com o inquérito em mãos, sigilo total e poder ampliado, ele poderia passar a relatoria para outro ministro – uma manobra que, na superfície, parece “renovação”, mas na prática perpetua o controle: o novo relator herdaria o monstro pronto, com precedentes de censura e expansão infinita. Nada muda o DNA censor; apenas troca o condutor. Diante desse limão azedo – sete anos de abusos, erosão da confiança, hipocrisia midiática e agora medo generalizado –, é hora de fazer limonada. A pressão da OAB, a repercussão midiática (mesmo tardia) e o incômodo interno no STF (há racha até entre ministros) mostram que o castelo treme. Conservadores, liberais e democratas de direita devem capitalizar: exigir arquivamento definitivo, transparência total sobre o Banco Master e freios ao ativismo que transformou o Supremo em ditadura togada. Não é defesa da democracia censurar. É ditadura judicial. O inquérito provou isso – e a grande mídia, que o apoiou quando conveniente, agora finge surpresa. Agora, com o fim batendo à porta por medo de atingir os próprios carrascos de Bolsonaro, cabe à direita organizada não deixar que ele renasça com outra cara em 2027. Porque, se não pararmos agora, o “fim do mundo” será para a liberdade de expressão – e para todos nós.
Emprego não cura crack: o autoengano das políticas para moradores de rua
Poucas ideias são tão emocionalmente sedutoras quanto a de “dar emprego para moradores de rua”. A proposta soa humana, solidária, civilizada. Apela ao nosso melhor instinto moral e, justamente por isso, costuma ser recebida com aplausos imediatos. Quem, em sã consciência, ousaria se opor a uma iniciativa que promete dignidade, renda e reinserção social para quem vive nas ruas? O problema começa quando confundimos boas intenções com bons resultados. Projetos desse tipo se multiplicam pelo Brasil exatamente na mesma proporção em que cresce a população em situação de rua. Florianópolis não é exceção. Pelo contrário: repete um roteiro já testado dezenas de vezes em outras cidades. A pergunta que raramente é feita é simples e incômoda: se essas políticas funcionassem, por que o problema só aumenta? A resposta exige abandonar o conforto das narrativas fáceis e encarar a realidade como ela é. A principal causa da permanência das pessoas nas ruas hoje não é a falta de oportunidade de emprego. É a dependência química, especialmente de crack e drogas semelhantes. Ignorar esse fato não é compaixão, é autoengano. Acreditar que um dependente químico severo conseguirá manter estabilidade profissional é uma fantasia. Pode até aceitar o emprego em um momento de maior lucidez, nos primeiros dias ou semanas. Mas quando a abstinência se impõe, a lógica da sobrevivência química fala mais alto. O resultado costuma ser previsível: abandono do trabalho, faltas recorrentes, desaparecimentos durante o expediente ou conflitos constantes com o empregador. Não por maldade, mas por incapacidade objetiva de sustentar uma rotina minimamente funcional. Esse é um dado tão conhecido que os próprios programas revelam sua fragilidade sem perceber. Quase sempre anunciam com entusiasmo quantas pessoas foram contratadas. Raramente informam quantas permaneceram empregadas após um ou dois meses. Não é descuido estatístico. É porque os números não ajudam a narrativa. Ainda assim, essas iniciativas continuam sendo defendidas com fervor. E aqui entra o fator decisivo: conveniência política. Dar emprego para moradores de rua é uma solução que não gera desgaste. Ao contrário, gera manchetes positivas, fotos emocionadas e discursos edificantes. É o tipo de política que produz capital simbólico imediato. Já enfrentar a dependência química exige decisões duras, debates impopulares e enfrentamento direto de tabus ideológicos. Exige internação, disciplina, coerção legal em certos casos e enfrentamento do discurso romantizado sobre drogas. Tudo o que um político avesso a riscos eleitorais prefere evitar. Na lógica da política de curto prazo, vale mais parecer que se está fazendo algo do que fazer o que realmente funciona. Afinal, a próxima eleição vem antes dos resultados de longo prazo. E quem sabe quem será o prefeito daqui a alguns anos? Por que assumir o ônus político de medidas difíceis se é possível apostar em soluções que comovem e rendem aplausos imediatos? O resultado é perverso. Ao oferecer respostas simbólicas, adiamos as respostas necessárias. Ao insistir em políticas que ignoram o diagnóstico correto, afastamo-nos ainda mais da possibilidade de cura. Esse raciocínio foi exposto com brutal clareza por Theodore Dalrymple, psiquiatra e ensaísta britânico que trabalhou por décadas com dependentes químicos, criminosos e moradores de rua. Em um de seus textos mais citados, ele afirma: “O sentimentalismo é a indulgência emocional que substitui o pensamento sério”. Dalrymple mostra que políticas públicas guiadas pela emoção, e não pela realidade, produzem exatamente o oposto do que prometem. Para ele, a recusa em nomear o problema é parte do próprio problema. Ao negar a centralidade da dependência química, criam-se políticas que tratam sintomas periféricos e ignoram a doença. É como oferecer uma bengala a quem precisa de cirurgia. A intenção pode ser boa, mas o resultado, salvo raríssimas exceções, é inócuo. Nada disso significa desprezo ou falta de compaixão. Pelo contrário. Levar o problema a sério é o primeiro gesto de respeito verdadeiro com quem vive nas ruas e com a sociedade que convive diariamente com as consequências desse fracasso coletivo. Enquanto insistirmos em confundir emoção com eficácia, seguiremos multiplicando programas bem-intencionados e colhendo resultados pífios. Boas intenções não bastam. Sem diagnóstico correto, não há tratamento possível. E longe do diagnóstico, os remédios errados continuarão sendo aplicados, com custo humano, social e moral cada vez maior. Talvez seja hora de trocar a pergunta confortável “quem é contra dar emprego?” por uma bem mais honesta: estamos realmente interessados em resolver o problema ou apenas em nos sentir bem enquanto ele cresce? Bruno Souza, empresário e Mestre em Sociologia Política (UFSC). Foi secretário municipal de Assistência Social de Florianópolis (SC), deputado estadual (2019-2023) e vereador na capital catarinense (2017-2019)
Pesquisa AtlasIntel: Após propaganda milionária no Carnaval, Lula despenca e Flávio Bolsonaro vira pela primeira vez no segundo turno
O jogo eleitoral é fascinante. Um labirinto de tentativas e erros onde nenhuma ciência é exata e até os mais caros publicitários e estrategistas cometem equívocos. Sabemos que quanto mais se divulga um produto, maiores as chances das pessoas comprarem, correto? Essa seria a regra número 1 da publicidade, mas o Carnaval deste ano deve virar um estudo de caso nos bancos dos cursos de marketing eleitoral. Enquanto partidos e candidatos lutam por segundos a mais no disputado horário eleitoral, Lula e sua equipe identificaram que o desfile de uma escola de samba seria perfeito para fazer uma longa propaganda do governo durante 1 hora e 20 minutos, em canal aberto, com direito a reprises, manchetes e repercussão internacional, tudo isso “gratuitamente” (ou pela bagatela de 9,6 milhões de dinheiro público). Aos olhos de qualquer publicitário, perfeito! Aos olhos de um estrategista, arriscado. Aos olhos do povo brasileiro: um tiro no pé! O novo levantamento da AtlasIntel mostrou que Lula caiu nas pesquisas e Flávio Bolsonaro subiu e pela primeira vez está na frente de Lula no segundo turno – e Flávio ainda não entrou em campanha, apenas divulgou que será candidato a pedido do pai. As propostas de Flávio ainda não foram oficialmente divulgadas e segundo seu coordenador de campanha, o senador Rogério Marinho, as reuniões para decidirem estratégias devem se intensificar a partir desta semana, ou seja, “o grosso deve entrar agora em março”. A mega propaganda eleitoral antecipada de Lula gerou: • Acirramento com os evangélicos e com o agronegócio • Saia justa com Temer e MDB (peça fundamental no tabuleiro político) • Motivação de questionamentos no Tribunal Superior Eleitoral • Recorde de críticas e menções negativas nas redes sociais contra Lula e seu governo • Vexame de grandes proporções com o rebaixamento da escola e notas dos jurados Tecnicamente falando, a equipe bem paga de Lula gerou marketing negativo para o candidato e antimarketing para Flávio. Embora pareçam ser sinônimos, as duas expressões representam falhas diferentes. O marketing negativo é quando uma marca ou pessoa é amplamente exposta e passa do seu teto, chegando ao público que não tem interesse ou rejeita o produto divulgado, gerando mais críticas do que elogios. Já o antimarketing é mostrar o Lula e as pessoas pensarem em Bolsonaro. É mostrar um Brasil perfeito no desfile de Carnaval e as pessoas terem 1 hora e 20 minutos de tempo para perceberem que na vida real não é nada disso que está acontecendo e lembrarem do ex-presidente que está preso e que indicou seu filho para concorrer em seu lugar. É criticar eleitores bolsonaristas e atacar as famílias que estavam assistindo o carnaval pela TV, implodindo as pontes que o governo estava tentando fazer com pessoas comuns. Resultado: Lula estava com 48%, subiu para 48,8% e depois do desfile caiu para 45%. Bolsonaro estava com 29,3%, subiu para 35% e depois do antimarketing subiu para 37,9%. Já no segundo turno Bolsonaro tem 46,3% das intenções de voto, enquanto Lula tem 46,2%. Uma mancada apoteótica!