O desgaste da retórica presidencial: quando o discurso só cansa e irrita

Há fenômenos na política brasileira que a ciência ainda não catalogou, mas o eleitor já conhece de cor. Trata-se do curioso “Efeito Voz Roufenstein”, que ocorre quando a voz esganiçada, rouca e eternamente irritada do presidente Lula entra em contato com o tímpano nacional.

Especialistas em acústica emocional descrevem o fenômeno como uma espécie de “microcurto-circuito neuronal”, com o cérebro do eleitor tentando decifrar a mensagem, mas travando no mesmo loop repetitivo de “culpa da elite”, “fracasso dos outros”, “perseguição”, “nunca antes na história”, “ataque à democracia”, “golpe”, “fascismo” e entrando em modo de economia de energia exteriorizada em irritação, fadiga, aversão e vaias.

O mais intrigante é que o fenômeno já ultrapassou as fronteiras do eleitor e chegou ao próprio gabinete presidencial. Ministros, assessores e até o cafezinho do Planalto relatam que o chefe passou a distribuir broncas como quem distribui senha de atendimento, de forma automática, áspera e seriada. Segundo o pessoal do andar de baixo, ele estaria vivendo aquilo que engenheiros chamam de “fadiga de material” — quando uma máquina industrial começa a emitir ruídos estranhos antes de travar de vez, sendo que o ruído estridente parte do próprio presidente.

Há relatos de que, em reuniões, ministros já se olham como quem escuta uma betoneira desbalanceada: “Vai explodir?”. Outros tentam amenizar dizendo que é apenas “estilo político”, mas o fato é que, real ou não, o barulho parece já não produzir o efeito desejado, não inspira, não mobiliza, não convence, apenas cansa e irrita: “Ih! Lá vem ele de novo com o bolodório de sempre.”

E o eleitor, que já enfrenta inflação, impostos, gasolina nas alturas e um país em câmera lenta, agora precisa administrar também esse desgaste acústico. A cada discurso televisivo, a reação é quase automática: suspiro profundo, mão na testa, e a sensação involuntária de que o volume subiu sozinho — mesmo quando a TV está no mudo.

A sociedade brasileira, que já teve de lidar com crises econômicas, políticas e morais, agora lida com uma crise sonora. O país pode até ainda ter músculos, mas a garganta presidencial… essa já de há muito pede arrego.

Se existe fadiga de material, existe também fadiga do eleitor. E esta, ao que tudo indica, já bateu à porta. Ou melhor, já gritou.

José H. C. Abreu (@camdeab)

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