O enredo da escola Acadêmicos de Niterói no carnaval do Rio transformou o sambódromo em palanque eleitoral ao fazer apologia a Lula. O desfile, transmitido com exclusividade pela Globo, foi classificado como um espetáculo panfletário que buscou apagar da memória do público os escândalos do mensalão e do petrolão.
A apresentação ajudou a consolidar a narrativa de que a Operação Lava Jato teria sido apenas perseguição política. Enquanto isso, o lulopetismo enfrenta acusações relacionadas ao que foi descrito como roubo aos aposentados, com a ala governista tentando impedir as investigações da CPMI do INSS.
Durante a campanha eleitoral de 2022, a propaganda petista afirmou que Lula foi absolvido pelo papa, pela ONU e pelo STF – três alegações falsas, segundo a análise. A referência dizia respeito às condenações de Lula em três instâncias judiciais por lavagem de dinheiro e corrupção passiva. O papa não possui jurisdição sobre processos judiciais de Estados estrangeiros, podendo apenas absolver pecados. A ONU igualmente não tem jurisdição para absolver quem quer que seja.
Quanto ao STF, o carnavalesco da escola teria dado impulso a uma das fake news mais descaradas em circulação: a que fala de absolvição de Lula no tribunal. O ministro Luiz Fux, do STF, declarou: “Ninguém pode esquecer o que ocorreu no Brasil, no mensalão, na Lava Jato, muito embora tenha havido uma anulação formal, mas aqueles 50 milhões [do Geddel] eram verdadeiros, não eram notas americanas falsificadas. O gerente que trabalhava na Petrobras devolveu US$ 98 milhões e confessou efetivamente que tinha assim agido.”
Gilmar Mendes, também ministro do STF, afirmou que a anulação de processos da Operação Lava Jato foi um “ato formal” e que erros processuais alegados para anular não apagam fatos revelados pela investigação. Em tom conclusivo, declarou: “Ninguém discute se houve ou não corrupção”.
A chamada “anulação formal” mencionada por Fux e Mendes ocorreu quando, após cinco anos de Lava Jato, um ministro do STF decidiu sozinho, em ato monocrático, que os crimes investigados não deveriam tramitar na 13ª vara de Curitiba. O que a polícia e o Ministério Público apuraram e o Judiciário julgou foi anulado para voltar à estaca zero. Não houve absolvição dos crimes – embora, passados cinco anos, já nem fosse permitido alegar incompetência territorial do juízo.
Fux e Mendes, segundo a análise, confirmaram que um “canetaço” tirou Lula da condição de condenado por vários crimes: ele não foi absolvido, foi “descondenado”.
O carnavalesco que concebeu o enredo da Acadêmicos de Niterói poderia, imitando Lula, alegar desconhecimento. Ele não leu obras como “O que Sei de Lula”, de José Nêumanne Pinto, nem “Assassinato de Reputações – Um Crime de Estado”, de Romeu Tuma Junior, que trazem fatos que contradizem a narrativa do samba enredo. Também não leu o livro da jornalista Malu Gaspar, “A organização: A Odebrecht e o esquema de corrupção que chocou o mundo”, que mostra que a Lava Jato não existiu apenas para perseguir o lulopetismo.
Conforme declarou o jornalista Jorge Serrão, a Acadêmicos de Niterói “cometeu um estelionato carnavalesco”. Pretextando fazer “arte”, usou “dinheiro público” para fazer apologia de um político que pretende se reeleger.
O culto à personalidade do líder político foi comparado ao que se via na Alemanha de Hitler, na China de Mao Tsé-Tung, na Cuba de Fidel Castro e na União Soviética de Stalin – regimes totalitários nos quais a violência estatal era método de governança.
Os integrantes da escola foram descritos como conduzidos sem consciência crítica, com artistas e celebridades vistas na TV ajudando a compor um ambiente favorável à manipulação de quem tem pouco ou nenhum acesso a informações além da televisão. Para os beneficiários da apresentação, o povo serviria apenas para manter privilégios.
Na raiz da estratégia estaria a presunção de impunidade. Repete-se a narrativa do “pobre operário”, embora Lula tenha deixado de ser operário aos 26 anos para se tornar político. O que foi descrito como “estelionato da escola” será apagado da história: a campanha eleitoral antecipada, o desrespeito à família e à religião, e o flagrante “discurso de ódio” da escola ficarão impunes, segundo a avaliação apresentada.
