Enquanto Cuba enfrenta escassez generalizada e apagões constantes, um conglomerado empresarial vinculado às Forças Armadas do país administra secretamente bilhões de dólares, conforme revelado pela BBC.
A Gaesa (Grupo de Administración Empresarial S. A.) não possui website, nem endereço de correio eletrônico institucional conhecido, nem canais oficiais de contato. A empresa não publica balanços financeiros e sequer aparece no orçamento estatal.
A Assembleia Nacional do Poder Popular e a Controladoria Geral da República de Cuba não podem auditar as contas da Gaesa — mesmo com a empresa embolsando praticamente cada dólar recebido pelos negócios mais rentáveis do regime cubano: turismo, remessas financeiras, comércio exterior e missões médicas no estrangeiro.
A holding pertence às Forças Armadas Revolucionárias de Cuba (FAR), mas também não está sob controle direto da instituição militar.
Em 2024, a Gaesa possuía bens no valor de pelo menos US$ 17,9 bilhões (cerca de R$ 89,4 bilhões), incluindo mais de US$ 14,4 bilhões (cerca de R$ 71,9 bilhões) em contas bancárias, segundo documentos vazados para o jornal americano Miami Herald.
Leandro Ruschel faz as seguintes ponderações sobre o tema:
O comunismo nunca se realizou em parte alguma. O mesmo vale para o socialismo na definição marxista: a tomada dos meios de produção pelo Estado, como etapa de transição ao comunismo. E há razões teóricas sólidas para crer que jamais se realizará.
A primeira razão é econômica. Foi formulada com clareza definitiva por Ludwig von Mises em 1920 e refinada por Friedrich Hayek nas décadas seguintes: sem propriedade privada dos meios de produção, não há mercado de fatores; sem mercado de fatores, não há preços; e sem preços, é literalmente impossível calcular se um determinado uso de recursos é mais ou menos eficiente que outro. Ou seja, o planejador central, por mais bem-intencionado e tecnicamente capaz que seja, opera no escuro.
Some-se a isso o argumento hayekiano do conhecimento disperso. A informação relevante para coordenar uma economia complexa está distribuída entre milhões de agentes, sob forma tácita, e não pode ser agregada por nenhum órgão central. Na prática, o mercado é, antes de tudo, um mecanismo de processamento de informação. Nenhum substituto burocrático jamais demonstrou ser capaz de replicá-lo.
Daí a segunda razão, que é empírica. Em todo país que tentou suprimir o mercado, da União Soviética a Cuba, da Coreia do Norte à Venezuela chavista, passando pelo Camboja, o que se observou não foi a abolição da economia de troca, mas seu deslocamento para a clandestinidade, na forma de mercados negros, economias paralelas e redes informais de favores. A troca de mercado é como a água: se você tampa um lado, ela escoa pelo outro. Vale lembrar que, sem essa “segunda economia”, regimes socialistas teriam colapsado muito antes do que efetivamente colapsaram.
A terceira razão é política, e talvez a mais importante. A promessa marxista é a da abolição das classes. O resultado prático, sem exceção, foi a emergência de uma nova classe, para usar o termo cunhado em 1957 por Milovan Djilas, antigo dirigente comunista iugoslavo. Trata-se dos quadros do partido, que passam a controlar simultaneamente o aparelho estatal e o aparelho produtivo.
A teoria da escolha pública, desenvolvida por James Buchanan e Gordon Tullock, explica por quê: agentes estatais respondem a incentivos próprios, não ao “bem comum” abstrato. Na prática, quando você concentra todo o poder econômico nas mesmas mãos que detêm o poder político, o resultado não é a igualdade prometida. É a superconcentração de poder numa nomenclatura, em escala que nenhum capitalista jamais sonhou alcançar. Não por acaso: é exatamente o que os incentivos institucionais previam.
No fim das contas, a proposta marxista não cumpre o que promete. Ela não pode cumprir, por razões estruturais conhecidas há mais de um século. Quem ainda a defende, ou desconhece esses argumentos, ou os conhece e prefere ignorá-los — em geral porque pertence ao grupo que se beneficiaria da revolução, ou porque opera com pressupostos normativos que valoram a igualdade de resultados acima da liberdade individual e do próprio bem-estar material agregado.
Leandro Ruschel
