Em 5 de julho de 2019, um sorridente Alberto Fernández fazia um L em frente à carceragem da Polícia Federal em Curitiba, após visitar Lula na prisão. Em um gesto carregado de simbolismo político, a visita do então candidato à presidência argentina demonstrava seu apoio ao “preso político” de seu campo ideológico.

Na época, não ocorreu ao juiz da Lava Jato proibir a visita, nem ao governo Bolsonaro impedir a entrada de Fernández no país. O político argentino fez sua pantomima panfletária e foi embora.
Corta para 2026. O juiz que colocou Bolsonaro na prisão não autorizou a visita de um representante de Donald Trump, e o governo brasileiro impediu sua entrada no País. A motivação de Lula é até compreensível, dado que uma diplomacia “altiva” talvez lhe renda algum dividendo eleitoral, como no ano passado.
A motivação de Alexandre de Moraes, no entanto, só faz o Tribunal afundar ainda mais na areia movediça da política. Afinal, qual exatamente o receio? Ingerência estrangeira nas eleições? Que tipo de ingerência poderia ser causada pela visita de um emissário a uma pessoa presa? Que Trump apoia Bolsonaro não há dúvida, com ou sem visita. Uma “ingerência”, se ocorrer, será independente de uma visita a Bolsonaro na prisão. Como disse Flávio Bolsonaro, Moraes “está arrumando confusão por nada”.
O milionário ministro do Supremo poderia dizer que a justiça é cega “mais” não é tola. Ele se acha o perspicaz guardião das instituições democráticas brasileiras. Com decisões como essa, no entanto, só demonstra o primitivismo de um brucutu sem freios.
Marcelo Guterman. Engenheiro de Produção pela Escola Politécnica da USP e mestre em Economia e Finanças pelo Insper.
